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O DIA SE DESDOBROU COMO UMA TOALHA BRANCA

Flanar. Flaneur. Andar  sem rumo  olhando a vida . Vida vivida  sem culpa ou rancor. Andar e parar  para  ver  o desenho perfeito de uma flor , mesmo as que  deixam de ser visitadas pelas abelhas . Aquelas coitadas , desamparadas , sózinhas . Andar e ver a criança  tentar seus primeiros passos , trôpega,  tonta e com que força e alegria  se vê no rosto  quando ela consegue finalmente por um pé diante do outro , Certeza terá  mais tarde quão duro  e perigoso é dar cada passo  , no frágil equilibrio de nossa vida. Todo aquele esforço , toda a recompensa , nem Atlas  deve ter sentido  quando foi condenado  á levar o Universo ás costas . Andar e ver a árvore centenária de grandes raízes  fincadas no solo  como estão nossos pés  e mãos . Andar  e ver a moça  de andar provocante , de barriga  á mostra , de colo atraente . A menina mal saída  da infãncia que conta  para as amigas  o beijo roubado do namorado , ou a mulher já moça  que maldiz  o safado  do enganador namorado  que mal desmanchou  com ela já anda com outra á tira colo . Olhar as mulheres que ainda  se sentem capazes de estar no mercado  de caça , de tanto fazer ginásticas para evitar e protelar o inevitável . Andar e ver as  senhoras que voltam  do mercado , da feira , da igreja , com  roupas  escuras  como se transportassem  em suas  costas todos  os males  do mundo , todas as penas  que tiveram . Andar e ver  a cidade vivendo , o dia andando , o tempo escoando . E sentar no banco  de madeira em baixo  da árvore  que já teve sua casca tantas vezes  lanhada por corações  romanticos , por outros despedaçados . Passar o dia assim flanando , sem prestar atenção  se já são dez  , meio dia ou seis da tarde , se faz frio  ou calor , se prenuncia uma tempestade , ou se  cairá uma garoa fina . Flanar por um dia , um único dia  e ver a vida  se desenrolar  , se desdobrar , transformando em noite . Ver a mudança do clima, das estações  , dos ventos, do Sol  e da Lua . Deixar a imaginação  fluir  em um longo e preguiçoso  descontrole da vida . Deixar  que o dia se desdobre como uma toalha branca.
grotius
Enviado por grotius em 15/09/2006
Código do texto: T241267

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
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