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A TRAVESSIA DO CHE

“Ser capaz de sentir indignação contra qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um militante.”
Che Guevara

O olhar firme desafia o futuro. O retrato imortaliza o comandante nos conflitos contemporâneos e abre uma nova perspectiva para o presente. Ernesto Che Guevara é uma personalidade que surpreende pela coerência dos atos na construção da história de vida dedicada à luta por uma sociedade mais justa.
Autor de pensamentos universais, originários das próprias vivências e percepções, e imortalizado no semblante de cada jovem em busca dos ideais revolucionários, Che Guevara superou as próprias limitações físicas, como a asma que lhe rendeu a dispensa do serviço militar na Argentina, para se tornar um combatente aguerrido e certamente o mais conhecido nos países da América Latina.
A leitura de seus textos é imprescindível à formação de qualquer militante. O legado deixado pelo pensador transcende as ideologias na grandeza de ser a possibilidade de transformação. A narrativa de sua história se encerra de forma coerente com a argumentação amadurecida nos seus relatos de viagens e guerrilhas. A morte de Che é o desfecho de uma vida de luta e dedicação.
No livro Diário de viagem – de moto pela América do Sul, escrito pelo então estudante de medicina em 1952, o sonho de Che Guevara de uma América Latina unida é costurado na fiel narrativa da realidade. Che descreve suas vivências, entrelaçando as aventuras juvenis com uma compreensão perspicaz das situações presenciadas. O forte sentimento de indignação contagia o leitor com a solidariedade e a necessidade de engajamento.
O sofrimento e a perseverança do casal de mineiros comunistas, quando o partido comunista estava prescrito no Chile; o abandono dos leprosários; o idealismo dos médicos; a vida massacrada dos índios à sombra dos grandes impérios destruídos pelos colonizadores; as dificuldades dos povos; a falta de compromisso dos governantes... Viajamos nos tantos capítulos e sentimos os percalços da viagem. A continuidade...? De quem são as minas de cobre no Chile? Como estão os povos da América Latina? E os governos?
O rio? Muitos questionam sobre a impossibilidade da travessia tão bem elaborada na obra cinematográfica de Walter Salles - Diários de Motocicleta, quando Che atravessou o rio que separava os doentes no leprosário. A travessia é a grande metáfora e o que verdadeiramente decifra o alcance da outra margem com a compreensão dos grandes dilemas e ideais a serem trilhados. A indignação do jovem argentino de classe média diante da realidade da maioria do povo latino-americano, privada de educação e de condições básicas para uma vida honesta, alicerça o revolucionário consciente.
Che Guevara compreendeu o momento histórico e o contexto dos países sul-americanos e empreendeu a luta pelo fortalecimento de uma América Latina fortalecida e imune às práticas imperialistas. Não deixou suas vivências naufragarem no conformismo e na apatia. Após concluir sua formação profissional em medicina, foi para a Venezuela encontrar-se com o amigo Alberto Granado e aprofundar seus estudos sobre a lepra. Contudo, na passagem pela Bolívia, encontrou o advogado argentino refugiado, Ricardo Rojo, e mudou o destino para Guatemala, onde estaria acontecendo uma revolução social.
O trabalho de Che Guevara, realizado no Instituto Nacional de Reforma Agrária da Guatemala, foi interrompido pelo golpe militar liderado por Castillo Armas, apoiado pelos Estados Unidos, que derrubou o governo revolucionário de Jacobo Arbenez em 1954. Che fugiu para o México, onde trabalhou em diversas funções até passar num concurso público, assumindo o cargo de médico de doença alérgicas num grande hospital. Lá conheceu o paciente Raul Castro que o apresentou ao irmão Fidel, então refugiado cubano. Conversaram toda noite sobre política internacional e quando amanheceu Che Guevara já era o médico da futura expedição.
Na história com as perspectivas dos renovados tempos e nas obras escritas pelo comandante no calor da revolução e da implantação dos ideais, resgatam-se frases atemporais usadas pela maioria dos militantes, independente de ideologia. Muitos equívocos, excesso de violência, diriam os mais críticos, mas certamente a transparência de intenções de quem acreditou num mundo melhor e que também errou ao reconstruir a história sem a possibilidade de rascunho. Durante a Revolução Cubana, Che se destacou pela bravura e pelo comando, sendo também o grande cronista do momento histórico.
Com o triunfo da revolução em Cuba, assumiu diversos cargos no Governo. Durante seis anos foi um trabalhador dedicado e colaborou com a estabilização do novo governo e das reformas realizadas, porém seu espírito revolucionário fez com que renunciasse à relativa segurança e se empreendesse na luta pela libertação em outros países como o Congo e a Bolívia.
Capturado na Bolívia, durante o movimento guerrilheiro, teve a morte decretada após 24 horas de sofrimento com inúmeros ferimentos. Foi metralhado e morreu com um tiro de misericórdia que lhe atravessou os pulmões e o coração em 8 de outubro de 1967.
O retrato de Che Guevara, morto com os olhos arregalados e a boca entreaberta, definitivamente silenciada pelo imperialismo, não consegue se sobressair às inúmeras fotografias do homem de olhar obstinado e de riso solto que estampam as camisas dos que ainda acreditam em uma América Latina fortalecida e unida e na grandeza das grandes revoluções individuais que constroem os verdadeiros heróis e mitos.
“De Che nunca se poderá falar no passado”. A declaração de Fidel Castro alicerça a grande repercussão do Che Guevara e a transformação do homem na figura mítica que combate o niilismo e a apatia. Seu sonho permanece vivo na resistência aos acordos internacionais impostos aos países latino-americanos, como a ALCA, na luta pela reforma agrária e no poder do povo.
Outubro. A história se ressente da ausência do revolucionário, precocemente assassinado aos 39 anos.  Muitos se questionam o que seria Che Guevara se tivesse sobrevivido às guerrilhas, outros trazem a certeza de que a vida do herói continuaria coerente com seus ideais... Sem respostas e com um mito cristalizado na consciência de todos os latino-americanos, resta-nos o futuro e a esperança de um mundo mais justo.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 12/06/2005
Código do texto: T24144
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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