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Idiossincrasias...

Hoje, eu quis chorar. Botei para rodar aquele CD com músicas selecionadas, de nossa trilha sonora, só com canções que falam de amor. Engraçado, nunca tinha percebido que aquelas canções tão românticas, que embalaram nossos beijos, contavam histórias de amores desfeitos, desencontros, desilusões e saudade. Todas letras tristes, mas bonitas de ouvir, pois mexem com os sentimentos. Num momento feliz, cantar uma música dor-de-cotovelo parece ser tão encantador, como se você sentisse que aquilo lhe faz feliz, como se não importassem as palavras mas, sim, a sonoridade de um violino, como em "To Love You More", de Celine Dion; do piano de Richard Claiderman, da guitarra de Bon Jovi, em "Always" ou, mesmo a fantástica voz de Withney Houston em "On Moment In Time". Canções que faziam sorrir, mas que também tem o poder de fazer chorar, com maior intensidade. Notei que as letras de nossas canções, contavam histórias tristes, mal resolvidas, abertas, finais infelizes. Ironicamente, eram essas as nossas canções. Eu rio e, em seguida, choro. Eu choro por tudo aquilo que perdi e perdemos. Não choro por nada material que ficou para trás e do qual eu tinha direito: computador, empresa, dinheiro ou qualquer objeto material. Nada disso importa, para mim e, não choro por isso. Sabe o que me faz chorar? Vou te dizer:
Choro pela maneira manhosa que você tinha em me pedir algo, me seduzindo com trejeitos infantis e meigos, apelando para meu lado paternal de atender os seus apelos; choro pela maneira que você inclinava a cabeça em direção a xícara de café para beber; choro pelas dezenas de copos d'água que você bebia diariamente; choro por seus fios de cabelo no sofá; choro por suas mãos aconchegadas nos bolsos de minha jaqueta, nos dias frios; choro por seus vários pares de sapato no meu quarto; choro pelos brincos que deixava em cima da mesinha da sala; choro por aquela insistência que tinha em querer aparar minhas unhas, ao invés de me deixar roelas; choro pelas vezes que foi vencida pelo sono, não conseguindo assistir filmes de madrugada; choro pelas tonelades de pipoca; choro por você encolhida nos bancos do ônibus quando viajávamos, aninhando-se em meu colo; choro por aquela folha de couve que te dei a primeira vez, ao invés de dar uma flor (queria mostrar que eu era diferente de outros, desde o início); choro pelo colchão na sala; choro pelas peças de teatro; choro pela declaração de amor que fiz para ti naquele primeiro dia de aula; choro pela vez que discutiu com uma colega que estava me cantando; choro pela habilidade que você tinha em ler de ponta-cabeça (nunca consegui fazer isso); choro por você assistindo aos jogos no estádio de futebol, com aqueles fones de ouvido; choro por cada mudança que fez em seus cabelos (não foram poucas); choro pelos recortes de jornal reunidos em um álbum; choro por aquela família de gatos brancos; choro por nossos dedos se encontrando pela primeira vez, embaixo da cadeira; choro por nós dois, matando aula no corredor da escola; choro por teu nome rabiscado nos meus cadernos; choro pelas provas que fez em meu nome, cobrindo minhas faltas; choro pela coragem que sempre quis que tivesse; choro pelas vezes em que depositei responsabilidades demais em teus ombros, por querer que fosse forte; choro pelas vezes, em que te provoquei para que não fosse menos que eu, pelo contrário, fosse superior; choro por lembrar de você dando aulas no Projeto; choro pelos planos que eu te ajudava a fazer; choro por você, galgando cada passo em tua escalada profissional, sempre me pedindo auxílio, com medo de errar; choro por aquela caneca do patolino que me deu; pela camiseta do Super-Homem que me trouxe de São Paulo; choro por suas histórias; pelo chuveiro queimado; pelo chapeu de bruxa preso na árvore; choro pelos meses de estágio, quando mal lhe sobrava tempo; choro pelo Pequeno Príncipe, emprestado do professor Ivo; choro pelos apelidos bobos que dávamos um ao outro; choro pelas cartas de amor; choro por aquela pázinha de sorvete que você mordeu, da primeira vez em que fomos a uma sorveteria; choro por nossos nomes escritos com canivete naquela árvore em frente ao colégio; choro por nós dois correndo na beira do mar; choro pela vez em que você brincou com três filhotes de leão; choro por suas tentativas frustradas em querer cozinhar; choro por seus espirros em sequência; pelas vezes em que esquecia sua bombinha contra a asma, me obrigando a voltar correndo para buscar; choro pela paixão que tinha pelos animais; choro pela maneira que me olhava quando eu me atrasava, quando marcava algo com você (e eu sempre me atrasava); choro por aquele concurso de fotos que você conquistou o 1° lugar; choro por aquela gincana em que fomos jurados; choro pelo gosto que tinha por brincos e pulseiras feitas por hippies; choro pelas noites frias, em que te cedia o meu casaco; choro pelas vezes que insistiu em querer, você mesma, cortar o meu cabelo; choro por suas unhas pintadas de preto; pelo tersol que, vez por outra, insistia em surgir, te deixando envergonhada e me obrigando a tirar e aquecer nossa aliança e passar em seus cílios (simpatia, diziam alguns); choro também pelas brigas; pelas vezes que te ofendi, de alguma forma; choro pelas vezes que deixei de te compreender e pelas vezes em que não soube entender meu pensamento; choro porque muitas vezes, não percebeu que eu era diferente de todos os outros e precisava ver um sentido, antes de tomar qualquer atitude; choro por por você insistindo em assistir "Gilmore Gilrs"; choro por você, pulando Carnaval; choro por teu guarda-chuva transparente, que você adorava e que eu deixei ser quebrado pelo vento; choro por teus sonhos que embalei; e pelos meus devaneios, que você jogou água fria; choro pelas vezes que me apoiou; choro pelas vezes em que cheguei a me encantar por outras pessoas; choro pelo bem que sempre quis para ti e pelo mal que não hesitou em me causar; choro também por todas as coisas boas que me proporcionou; choro também porque sou grato a tudo o que aprendi contigo; choro por teu ciúme, que eu não soube compreender; choro pelo ciúme que eu também não soube demonstrar; choro pelas vezes em que não briguei por ti, como pedia, mas acreditava que o fazia, estando contigo para qualquer coisa que acontecesse. E eu estaria do teu lado, sempre. Eternamente. Honrando minha palavra. Honrando os meus sentimentos e os teus. Por tudo isso, e por muito mais. Hoje eu chorei, ouvindo canções melancólicas que falavam de amor, abandono, solidão, desencontro, paixões mal resolvidas, saudades, desilusões. Hoje eu quis chorar, sim. Por todas as lembranças e por todas as idiossincrasias. Hoje eu quis chorar para que eu lembrasse que esta seria a última vez.
Márcio Brasil
Enviado por Márcio Brasil em 16/09/2006
Reeditado em 16/11/2007
Código do texto: T241510

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Sobre o autor
Márcio Brasil
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil
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