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              Alegres periquitos

         
Ontem, ao cair da tarde, recebi uma dessas visitas que a gente reza pra que ela nunca se vá; que fique para sempre.

          Estava mergulhado nas páginas de O Inimigo do Rei, um livro que conta a vida de José de Alencar, quando ouvi Ivone, quase aos gritos, dizer: - "Venha ver! Venha ver!"
 
         Pensei que fosse mais um choque entre dois carros.  Eu moro próximo ao cruzamento de duas movimentadas ruas de Salvador: a São Paulo com a Bahia, no glorioso bairro da Pituba.

         Cheguei à janela, e vi alegres periquitos pousando, suavemente, nas viçosas amendoeiras que cercam meu edifício. Antes de se agasalharem, em voos rasantes, eles enfeitavam meu crepúsculo!

           Fiquei extasiado. Nunca vira tantos periquitos juntos - eram mais de cem; talvez muito mais, no céu do meu bairro. 

           Os periquitos, como as jandaias, maracanãs, papagaios, são aves do sertão. 
           Não falo dos periquitos australianos. Estes, a gente os vê, com freqüência, nos viveiros, nos jardins e nos parques das grandes cidades.

          Olhando os periquitos se divertindo em torno do meu apartamento, fui buscar, nas minhas mais distantes relembranças, o que precisava para escrever esta crônica.
          Um dia, meu pai comprou um terreno, no interior do Ceará. Nesse terreno existiam mais de cem pés de caju, um extenso milharal, uma casa enorme, uma pequena lagoa, e uma incomparável felicidade.
          Minha mãe, muito devota de Nossa Senhora, logo deu ao terreno o nome de Betânia, a cidade da Judéia onde Jesus vadiara quando menino.
          Ela dizia, com irremovível convicção, que a sua Betânia era um novo paraíso.
          Eu, um meninote traquina, achava que a Velha exagerava. Aprendera no Catecismo que, no paraíso, Eva e Adão andavam nus; e que de sua nudez, não se davam conta!

               Na minha Betânia, só vira uma pessoa nua: a linda cabocla Carmélia, filha do velho caseiro, a quem meu pai confiara a guarda do nosso milho e a poda dos robustos cajueiros, cujos galhos imensos, beijavam o chão.
         Hoje, pagando caríssimo pelo suco de caju, e uma nota preta pelo milho do são-joão, vejo que minha mãe tinha razão quando chamava de paraíso aquele nosso modesto rancho sertanejo.
            Me lembro,  que todos os dias, também ao cair da tarde,  centenas de periquitos pousavam sobre a Betânia, fazendo um aranzel dos pecados. 
           Aos pares, procuravam as copas dos cajueiros, para o pernoite seguro e tranqüilo. 
           Quando o sol nascia, eles levantavam voo. E sem pedir licença, invadiam o milharal, provocando um incalculável estrago. 
           Não adiantava espalhar espantalhos nos locais considerados estratégicos. Eles não estavam nem aí para os bonecos coloridos colocados por meu pai, entre os pés de milho.
           A gente não ficava zangado com os prejuizos causados pelos periquitos em nossa plantação.  Era proibido matá-los ou aprisioná-los em gaiolas ou em viveiros. Meus pais não permitiam. Tudo isso eu recordei, enquanto acompanhava os periquitos, ontem, quando sol se despedia, fazerem das amendoeiras de minha rua seu aconchegante dormitório.
        Esta é uma história que a pouca gente interessa. Talvez nem coubesse num site que, espero, esteja viajando pelos cinco Continentes.
           Ao revivê-la, aqui, meu objetivo é, apenas, dividir com algum atribulado leitor, um dos bons momentos felizes que curti, no distante sertão cearense, na primeira metade do século 20.
          Quero que os alegres periquitinhos da Pituba me visitem mais vezes. Amanhã, na hora da Ave-Maria, estarei, com Ivone, na minha janela a esperá-los...  
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 16/09/2006
Reeditado em 23/08/2013
Código do texto: T241793
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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