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Insalubridade bancária

Depois de uma tarde de observação, descobri que fila de banco pode ser considerado um ambiente insalubre. E quem as freqüenta diariamente por imposição da necessidade está exposto a uma infinidade de microorganismos.

Pego a ponta da fila e observo tudo à minha volta. Do lado de fora, um calor de mais de 30 graus. Do lado de dentro, ar condicionado, tudo fechado. A fila para os caixas, como sempre, está maior do que o espaço determinado para ela. Sem contar os que esperam para ser atendidos na gerência. Gente, muita gente.

As pessoas vêm lá de fora esbaforidas, suadas, cansadas do sol inclemente. São elas que dão ao ar bancário aquele odor de tudo um pouco. Azedo, quase pútrido; mofo; perfumado em excesso; ausência de higiene básica. Aos que trazem alguma fragrância, também há diversidade delas: doces, ácidas, suaves, fortes, fortíssimas. As reações, claro, são imediatas. A primeira é o indefectível espirro – ou uma sessão deles. Afinal, não há rinite que suporte tamanha variedade de cheiros por mais de 30 segundos.

Outros apenas fungam. E como fungam. O pior é quando fazem isso no seu cangote. Aliás, difícil saber o que é pior, porque há ainda os acessos de tosse. Desde um inocente pigarro (será mesmo?) até as crises possivelmente atribuídas a uma forte gripe. Há as tosses discretas, de cabeça baixa, e as mais escandalosas, trazidas lá do fundo do pulmão. Tudo isso num salãozinho apertado, onde aquele ar condicionado não dá conta.

No meio desta profusão de vírus, ecoa o som de um celular chamando. E a surpresa é geral com a execução da versão digital de "Festa no Apê", do bailarino e dublê de cantor/compositor, Latino. Dá aquela vontade de rir, misturada com vontade de soltar um “ninguém merece”... E a moça, coitada, morrendo de vergonha porque não consegue encontrar o telefone dentro da bolsa.

A fila não anda, o calor incomoda, alguns se abanam com suas contas a pagar. A maioria já começa a demonstrar os primeiros sinais de esgotamento. E este já é outro fator de insalubridade. Estresse, irritação e mau humor são de fácil contágio, principalmente em fila, de qualquer lugar ou natureza. E vira bola de neve (quem dera, né?). Quanto mais se irritam, mais tossem, mais espirram, mais fungam. Quanto mais tossem, espirram e fungam, mais se irritam. Em meia hora de fila (e isto é o mínimo imaginável), os riscos de contaminação são inúmeros. Por vírus, bactérias ou estados de ânimo.

Pelo menos para não me expor à contaminação pelo vírus do estresse, puxo da bolsa um livro de Fernando Sabino – "Deixa o Alfredo falar!". Meu marcador me presenteia com uma crônica de 16 páginas sobre Londres. Que passeio, que viagem! Frio, neve, sobretudo e guarda-chuva. Algo melhor e mais aprazível para se ler numa ocasião como esta? Enfim, termino minha leitura faltando três pessoas antes da minha vez. Chego ao caixa mais leve, calma e relaxada, como se estivesse acabado de descer do avião, de volta ao Brasil.
Giovana Damaceno
Enviado por Giovana Damaceno em 16/09/2006
Código do texto: T241971

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Sobre a autora
Giovana Damaceno
Volta Redonda - Rio de Janeiro - Brasil, 47 anos
106 textos (7961 leituras)
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Giovana Damaceno