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Crônica fúnebre cheia de vida

Falar sobre morte é uma coisa chata. Ela fala por si. O importante é a vida, que é o nosso tempo neste mundo.
Mas li no jornal de hoje sobre a morte de um padre aqui do Rio Grande do Sul, João Peters, que desde 1969 era capelão da Brigada Militar (a polícia militar daqui) e famoso por, há 32 anos, ter criado a hoje tradicional procissão de motoqueiros para homenagear Nossa Senhora Aparecida.
O que me tocou é que esse personagem fez parte da minha vida quando, em 1984, eu cursei a Escola de Segundo Grau da Brigada Militar (hoje Escola Tiradentes) em Porto Alegre. Meu pai é policial militar aposentado, e fez gosto que eu estudasse lá, onde fiquei um ano e não quiz continuar.
O padre Peters, que veio da Holanda, era professor de ensino religioso na referida Escola. Era gordinho, com um sotaque de estrangeiro misturado com a fala típica dos padres, bonachão, um cara legal e acessivel.
Uma das coisas que nunca esqueci foi quando ele nos comunicou que se ausentaria por uns meses, visto que ia ver a sua mãe na Holanda. Ele estava reflexivo naquele dia, pois nos confidenciou que sabia que era a última vez que a veria. Se não me engano, ele já sabia que ela não estava com saúde para viver por muito tempo.
Ontem foi a vez dele partir para junto de sua mãe. Depois que saí da escola não o vi mais, a não ser pelas matérias de jornal e TV, geralmente relacionadas a procissão.
Mas aquela fala, de um filho que ia ver a mãe pela última vez e que passava anos sem partilhar da presença da mesma, marcou-me especialmente. E eu nem sei bem o motivo. Talvez seja pela intimidade compartilhada com a turma naquele dia, com todos nós, com o coletivo que representávamos enquanto jovens estudantes cheios de sonhos, anseios, medos e planos.
Também hoje, ao ir no supermercado, vi a foto de um conhecido no obituário que as funerárias da cidade fixam no local e nas agências bancárias.
Seu Valdir. Estava lá o nome completo dele (eu nem sabia o seu nome completo). O enterro foi às 10 horas da manhã, já tinha acontecido. Eram 18 horas.
Seu Valdir foi muito amigo de meu pai. Era agente penitenciário, casado e pai de uma filha e dois filhos. Na década de setenta tinha um armazém onde meu pai comprava.
Eu inclusive ajudei o meu pai a construir um aumento na casa dele. Meu velho sempre gostou de trabalhar como pedreiro e carpinteiro nas horas vagas.
Também a minha esposa, quando jovem, trabalhou como professora no presídio (antes de eu conhecê-la) e conviveu com o seu Valdir.
Ele tinha uns setenta anos, regulava de idade com meu pai. Regulava... Sinto uma estranheza ao usar o verbo no passado, pois faz uns dois meses eu estava indo com meu pai a Porto alegre e encontrei o seu Valdir, que há muito não via (mesmo morado na mesma cidade!), na rodoviária. Ele estava o mesmo, calvo, com o tradicional bigode, a voz grave pausada e musical. Um pouco mais enrugado apenas (os carecas não mudam muito, né?).
Seu Valdir estava magro. Parou para conversar conosco. Falou que se cuidava controlando a alimentação e, se não me falha a memória, andando de bicicleta e caminhando. Consultava seu médico regularmente. Sentia-se melhor com isso e aconselhava meu pai a fazer o mesmo. Eu concordei com ele e reforçava seus conselhos ao meu genitor, que come demais, está gordo e é sedentário.
Vejam só, ironia do destino, o seu Valdir faleceu de um ataque cardiaco! Fiquei chateado. Várias lembranças de infância vieram a mente, ligadas direta ou indiretamente a ele. Logo, parte da vida dele está na minha memória, assim como pequena parte da vida e sentimentos do padre Peters.
A vida é isso, é a nossa passagem por aqui e o que a gente faz dela. O que fica é a lembrança dos outros que vai durar o tempo que tiver que durar.
O que importa não é o quanto se vive, mas como se vive. O que importa é o que fica, não importando o quanto dure tal lembrança.
Com disse o poeta João Cabral de Melo Neto:
"podeis aprender que o homem
é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
Não é a morte mas a vida."
Afinal, quanto tempo vai durar a lembrança dos grandes vultos da atualidade? Artistas, líderes políticos, religiosos? O que vai sobrar daqui a um milhão de anos dessa nossa humanidade de cinco mil anos de história?
O poeta Castro Alves viveu 25 anos, mas a intensidade de sua existência o tornou um dos mais importantes poetas brasileiros, mesmo tendo lançado apenas um livro em vida (Espumas Flutuantes - 1869). Aqui no Recanto, por esses dias, li um acróstico em sua homenagem na página da Ana Côrtes. Alves viveu menos que, por exemplo, Machado de Assis (68 anos), mas está ao seu lado a história da literatura brasileira.
Fernando Pessoa viveu 47 anos, o que bastou para se tornar o maior poeta da lingua portuguesa. Ele escreveu as famosas "Palavras de Pórtico", onde parafraseava os navegantes antigos escrevendo que "viver não é necessário; o que é necessário é criar". Esse entendimento está contido no famoso poema "Mar Português", que tem o conhecido verso (que adoro citar) "Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena."
Cada um sabe o que vale a pena para si. Escrever, ter família, sei lá. O que importa é ser feliz, viver o presente, viver a sua verdade. O legado será o resultado do presente vivenciado, fixado na lembrança das pessoas que compartilharam tal presente, passando-o adiante, para o tempo que tiver que durar nesse mundo finito.
Esses dias também lí aqui no Recanto o poema "O meu soneto do ódio e do amor", do poeta Henricabilio, onde ele se referia em uma nota ao final do mesmo que as vezes algumas intimidades da gente revelam coisas comuns a todos, mesmo não parecendo que tenham importância coletiva.
Acho que a minha crônica, com temática pessoal e subjetiva, dá razão a afirmação dele.
Minhas lembranças pessoais de convivência com o padre Peter, com o seu Valdir, permitem considerações gerais sobre a questão da vida e da morte.
Viver é viver, morrer é morrer. Somente sobre a vida temos poder e escolha. A morte não está sobre o nosso controle. Ela é inexorável.
Isso vale para todos nós.


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Completei 2000 leituras hoje. Legal.

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Amanhã faço o show de lançamento do CD independente que fiz com o cantor e compositor charqueadense Alberto André, na 6 Formas Pizzaria.  As músicas são dele, eu toco guitarra e participo dos arranjos. Legal também.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 16/09/2006
Reeditado em 28/09/2006
Código do texto: T242057
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 48 anos
641 textos (131903 leituras)
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 20:32)
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