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1963

Mais um ano se inicia e com ele novos sonhos são realizados. Alguns deles considerados impossíveis por muita gente.

Como poderia nossa cidade ser iluminada por luz elétrica produzida pelas águas da cachoeira de Paulo Afonso?O velho Chico era, na verdade, conhecido por tudo que oferecia ao homem nordestino. Mas esta história dele dar luz parecia lorota, não dava pra acreditar, especial-mente pelas pessoas mais idosas. Não é que é verdade mesmo? O São Francisco deu luz. Deu vida nova à nossa cidade que a partir daí teve energia as vinte e quatro horas do dia. Muita coisa mudou na vida do nosso povo. E pra melhor!

Foram surgindo os eletrodomésticos para facilitar a vida das donas de casa, os rádios e as radiolas elétri-cas para o nosso lazer e tantas outras coisas para o nosso bem estar.

A inauguração ocorreu no dia cinco do mês de março do ano de mil novecentos e sessenta e três.

Quanto a mim, cursava o segundo ano normal, à noite, e tinha o dia todo preenchido. Lecionava Matemática no terceiro ano primário e no curso de admissão ao ginásio da Escola Pe. Abath, de sete às nove horas da manhã, e, Matemática e Ciências na primeira e segunda séries ginasi-ais do Colégio Pe. Viana, no horário de catorze às dezes-seis horas. O restante da manhã e às vezes à tarde, o tem-po era preenchido com as atividades da Agência de Estatís-tica do IBGE.Eu havia assumido o compromisso de ser Esta-tístico Municipal para colaborar com a nossa cidade, e, sobretudo, para salvar a situação de uma pessoa amiga que passava por momentos difíceis, na iminência até de perder o seu emprego de agente de Estatística. Ela, involuntari-amente, havia alvejado um amigo, tirando-lhe a vida, e, necessitava ausentar-se de Brejo Santo.

Eu tinha apenas dezessete anos de idade e me sen-tia feliz em ser escolhida como pessoa de confiança e ca-paz de assumir tamanha responsabilidade.

Foi muito difícil conciliar todas aquelas ativi-dades, mesmo porque eu era uma pessoa ainda inexperiente. Tive um ano de muito trabalho que me ofereceu, porém, oportunidade de conhecer de perto outras realidades.

        Passei a lidar com pessoas de outros mundos até en-tão desconhecidos. O contato com o professor municipal das zonas urbana e rural me fez adquirir novas informações e inúmeras amizades.

       O ato de fiscalizar o cinema e outras diversões públicas, como parques de diversão e circos, entregando-lhes os selos de estatística, me oportunizou crescimento no relaci-onamento com as pessoas.

     O manuseio, isto é, o recebimento, protocolo e envio da correspondência me ajudou a ser, mais tarde, uma profis-sional organizada. Cresci muito durante este ano, em todos os sentidos.

No segundo semestre deste ano, com a ida da profes-sora Maria Beatriz Pinheiro Feijó para o Banco de Crédito, assumi suas aulas de Matemática, na terceira série ginasi-al do Colégio Pe. Abath, como estagiária.

Com a fortaleza e a sabedoria dadas pelo Espírito Santo soube manter a disciplina de uma turma de alunos, praticamente da minha idade; o que me garantiu o título de “professora de Matemática” por toda a minha trajetória pelas escolas da minha terra.

No final do ano, após tal façanha, fui à Fortale-za, por indicação do diretor da Escola, para participar do curso de CADES a fim de obter o registro para lecionar Ma-temática oficialmente.

Também neste ano, fui indicada como candidata a oradora da UEBS. E fui eleita.

Com todo esse corre-corre eu não tinha tempo para divertimentos, e, além disso, papai não permitia que eu fosse às tertúlias e festinhas sem a companhia dos meus irmãos.

Eu sentia muitas saudades de Erivaldo. Ele foi sempre muito compreensivo enquanto que Iderval, com seus ciúmes exagerados, atrapalhava as minhas saídas.

        Apesar de já namorar com Raimundo, meu primeiro e único namorado, não ia sozinha com ele, às festas. Papai não consentia.
Recordo-me da inauguração do Ideal Clube. Papai concordou que eu fosse à festa com minhas primas Irene e Maria. Porém, antes mesmo que ela começasse, ele mandou Marizete me chamar. Atendi ao seu chamado, voltei para casa e chorei a noite toda. Ele não aceitava a idéia de uma festa começar após dez horas da noite. Antes da luz de Paulo Afonso, as festas terminavam antes das dez horas.

       Aos poucos, ele foi se acostumando, tanto com o horário das festas como com as segundas sessões do Cine Alvorada.

E no final do ano, nas festas colação de grau dos alunos do Colégio Pe. Viana e Pe. Abath, eu participei, livremente, sem nenhuma proibição.

Este foi para mim, um dos anos mais importantes da minha vida, sobretudo, profissionalmente.

Porém para o mundo, um de grandes perdas. Faleceu aquele que idealizou o Concílio do Vaticano II, o Papa João XXIII. E foi assassinado brutalmente o jovem Presi-dente dos Estados Unidos da América, John Kennedy.

Quanto ao Brasil, vibrou de alegria pela escolha da primeira Miss Universo, a gaúcha Iêda Maria Vargas.

E Brejo Santo feliz termina o ano com a adoção de mais um filho: o Dr. Antonio Alves de Araújo, que aqui veio clinicar como diretor e cirurgião da Casa de Saúde Maria Gomes Nicodemos.

 
marineusa
Enviado por marineusa em 17/09/2006
Reeditado em 17/09/2006
Código do texto: T242085

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Sobre a autora
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Brejo Santo - Ceará - Brasil, 71 anos
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