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POR QUE POESIA EM TEMPOS INÓPIOS ?

Poesia é linguagem universal existente em todas as culturas que se comunicam pela expressão escrita, sendo assim, não fica difícil compreender que ela carrega em si mesma o retrato fidedigno dos povos, expresso pela palavra. Entretanto, vivemos tempos de indigência e é preciso delinear as categorias a que nos referimos.
 
Se falamos da indigência material, esbarramos com o significado coletivo da penúria e precariedades econômicas oriundas de um sistema discriminatório e predatório ao próprio homem, deferindo a ele uma condição menor na selva da sobrevivência. 

Se nos referimos à indigência emocional - espiritual que descaracteriza a humanidade como espécie em constante evolução, ressaltamos atributos de valores menores e atitudes duvidosas do ponto de vista do caráter e da dignidade. 

De que inópia estamos falando afinal, a que torna explícita a mendicância ou a que se faz implícita nos sentimentos humanos por desacreditar numa possível virada, diante de cenários reais e absolutamente improváveis de resistência? 

Seja qual for a indigência estabelecida que num perfil sócio - político cultural acaba por entrelaçar-se, a poesia entra como uma espécie de socorro e redenção, quando diante de tudo que a própria indigência veta, resta a liberdade de expressão. 

Poesia é, portanto, a ação de fazer algo, é entusiasmo criador, aquilo que desperta o sentimento do belo, o que há de elevado e comovente nas coisas e nas pessoas. Sendo assim, os tempos modernos de indigência estão para a poesia como o fiel está para a balança, pois, parafraseando o sentido literário ao pé da letra, que conceitua a corrente da poesia moderna, vemos que a mesma renuncia à expressão de sentimentos individuais e ao material anedótico da própria vida. 

Outrossim, ficamos convencidos de que poesia é o elemento sério que neutraliza e equilibra a indigência inevitável, muitas vezes sob desejo de que fosse piada ou jogo de faz de conta. 

Ela permite que diante de circunstâncias tão severas, ainda brinquemos com as palavras, fazendo versos inócuos que aliviam o peso do que muitas vezes não se pode sustentar.

A exemplo disto, a imagem do trabalhador que morava na periferia e ao saltar do trem para um dia de trabalho, constata que uma enchente inunda a cidade e seus sapatos furados não chegarão nem ao meio do caminho. Pensando no sustento da família, segue sua trilha descalço pelas ruas até o local onde fica o emprego. Ao chegar diante de seu chefe que o olha de cima à baixo como se fora uma ave de rapina, diz sorrindo, em versos feito prosa, um humilde apelo sem rima, que o defende da sensação de rejeição que a própria cena encere: 

“- Dr, sou um trabalhador, sobra mês no final do salário, acaba meu dinheiro que não é tão ausente feito esmola de indigente, mas trinta dias é muita coisa para um operário que valente, só pensa na fome de sua gente . Não é o Sr que paga pouco, os dias é que são muitos . Me deixa entrar e ir adiante, mesmo de pés no chão, a diária garante meu pão . “ 

Ali, aquele patrão, visto como simbólico do sistema em que vivemos, compreendeu que mesmo em tempos de indigência estava diante de uma riqueza que não se compra com moedas, a capacidade humana de aceitar fatalisticamente a condição de dificuldades postas, transformando agonia em poesia e contradição em solução.
Márcia Beatriz Prema
Enviado por Márcia Beatriz Prema em 17/09/2006
Código do texto: T242576

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Sobre a autora
Márcia Beatriz Prema
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Márcia Beatriz Prema