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Caí no canto da Danni Carlos

Há alguns poucos anos escutei músicas estrangeiras de alguns grandes grupos de rock em voz melódica e suave. Qual não foi minha surpresa ao saber que a intérprete era a brasileira Danni Carlos, seguindo a trilha de sucesso do mineiro Emmerson Nogueira. Comprei discos, divulguei entre amigos e curti o rock na voz de Danni Carlos até o dia em que ela veio ao interior e me decepcionou.

Numa boate de Itaperuna a programação era  que o show começaria às 23 horas. Até essa hora, a boate estava fechada, não se poderia entrar, nem para dançar, nem para beber algo, ou mesmo esperar sentado. Quem quisesse, que chegasse na hora marcada, antes não! Imaginei que ali estariam todos os meus contemporâneos cansados da falta de programação para nossa idade no interior e, como eu, estariam eufóricos por escutar Beatles, Oasis, REM e tantos outros na suavidade da voz brasileira de Danni. De fato, muitos casais maduros, muitas mães com seus filhos adolescentes, muitos jovens senhores ansiosos para a abertura dos portões. Sim, às 23 horas foi liberada a entrada! Não tinha onde sentar e uma música tecno tocava sem parar o mesmo tum-tum. Em pé, na expectativa de uma grande noite, não me incomodou o salto, nem a música fora do meu padrão de qualidade, já que dentro de minutos, como anunciava o locutor, estaríamos diante da sensação do momento. Até dancei pra entrar no clima.

Passadas duas horas e trinta e cinco minutos, ou seja, à uma e trinta e cinco da madrugada, a cantora chegou no palco. A casa estava lotada. O público vibrou com a presença da cantora tão próxima de todos. Flashes por todos os lados. E decepção. Danni Carlos abriu a noite, ou melhor, a madrugada, com uma seqüência de rock de sua autoria e de seus amigos, que ela disse ser o seu trabalho, numa mistura de Pitty tresloucada  com Marjorie Estiano loira (dá pra imaginar?). Um desastre! Só que o “seu trabalho” de rock brasileiro-totalmente-desconhecido é muito extenso! E não parou!!!

Nem umazinha das tantas dos meus CDs, nem uma das que me fizeram tirar o marido de casa quase que à força na noite de sábado, esquematizar com a sogra para um filho ir dormir lá e organizar as coisas da filha que foi para a casa de uma amiga. Nem uma que compensasse o descolacamento de Porciúncula a Itaperuna e horas preciosas de sono perdidas! Perdi!!!

E aquele saculejar de cabeça, e aquela gritaria insane, junto ao meu desapontamento, me deu uma sonolência terrível, que eu mal podia acreditar! Precisei unir minhas forças, buscar minha humildade àquela hora da madrugada, engolir todas as palavras que usei para tirar o marido de casa e convidá-lo, às três horas, para voltar para casa.

Quanta decepção! Não só minha! Enquanto eu esperava ser atendida na imensa fila do bar pelo último gole da noite, o que eu escutava era só desalento: “Caramba! Isso é muito ruim!” “E me falaram pra eu vir que era um super som!” “Eu não conhecia a moça, mas me garantiram que eu ia gostar. Acho que tenho cara de dezoito anos, heim?”

Não, amigos, não temos cara de dezoito. Temos cara do tempo que temos, mas nossos gostos não são como os dos de dezoito. Problema deles! Eu gosto muito mais dos meus gostos que dos deles! Nós fomos enganados, ludibriados, usados pela mocinha lá apresentar o “seu trabalho” para um público ávido de consumir novidades. Nós, que curtimos os Beatles e os Rolling Stones, Bob Dylan e Janis Joplin temos que nos contentar em ficar em casa, escutar CDs e dormir... E dormir bem, porque sobre nossas costas pesam grandes responsabilidades no dia seguinte e na semana toda.

Sinto-me uma idiota por ter acreditado que a Danni Carlos dos meus Cds, do meu cantarolar alegre e balanço suave estaria em Itaperuna no dia 16 de setembro. Só uma boba mesmo como eu para cair numa furada dessas. No interior, minha gente, passou dos trinta, o lugar é a cama ou em frente às televisões cada vez maiores e cada vez mais com menos conteúdo interessante e inteligente. Fazer o quê, né? Chorar na cama, literalmente!!!

 

Rosimere Ferreira
Enviado por Rosimere Ferreira em 18/09/2006
Código do texto: T243234
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Sobre a autora
Rosimere Ferreira
Porciúncula - Rio de Janeiro - Brasil
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