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COR DE BURRO QUANDO FOGE

Ele vinha de cabeça baixa, tinha a respiração impregnada de muito cansaço. Os olhos baixos tinham a certeza do caminho, sempre o perseguiam com cuidado – o mais importante é ter o dia-a-dia sob um olhar atento. As orelhas abaixadas já demonstravam que estava conformado – seu medo ou raiva havia se esvaído ao vento junto a poeira – seus sentimentos estavam encardidos. Sua cor...?
Cruzava com ele alguns julgamentos. Talvez tivesse sido condenado... mas... O que fazer quando nada do que foi, permanece? Como remontar o início se estamos tão marcados de meio. Ele caminhava ainda ereto, o corpo continuava firme, apesar de tão desabalada corrida.
Letícia, menina de cinco anos recém completados, observava a tudo com olhos inocente. Sentia admiração por tão inusitada visão e pena:
- Tadinho, tão cansado! Posso ser amiga dele?
A mãe calada, segurava com cautela a mãe de Letícia. Algumas vezes, utilizava-se do silêncio para responder aos absurdos da filha.
- Criança criada com muita liberdade dá nisso, sua criatividade perde o limite.
Letícia continuava a falar o que achava de seu novo amigo. Queria ter um contato, descobrir como vivem os desiguais, mas a mãe permaneceu calada, depois, tinha certeza que tudo na criança passa – passa a própria criança e quando tentamos achá-la é tarde, nunca mais a reconhecemos.
Percebi como é cruel deixar a criança crescer inocente, deixar a criança convicta em sua pureza e ainda silenciar... Em algum momento a verdade deveria ser dita e a desigualdade, ainda vista de uma perspectiva lúdica, realizada de uma forma concreta.
A mãe olhava tudo com os olhos de mesmices, cinzas de sombras. Tudo tão representado..., a filha continuava falando, pedia, perguntava, misturava tudo nos contos de fadas - uma vez leram uma história que havia um personagem igual que falava e que era bonzinho. Ele continuava vindo, com os passos firmes, orelhas e olhos abaixados e postura ainda ereta – permanecia preenchido de vida.
Repentinamente, ele parou... Ficou ali em exposição para todos... a criança cansou de sua curiosidade, começou a observar as formigas enfileiradas que entravam no formigueiro...
- Como podem viver embaixo da terra? Também tem aquela história...
Inquietações de crianças se exteriorizam, enquanto as dos adultos se perdem na incerteza de como podemos viver em nós. Não tem história com nosso personagem.
A mãe de Letícia, visivelmente incomodada, passa as mãos pela roupa, tentando tirar o pó. Está entediada com a visão, não consegue se entreter com outro acontecimento e está cansada demais para descansar em si.
- Pobre burro. Que vida sem sentido!
Ele vai com a cabeça baixa. A respiração, mais descansada, ainda tem vestígios de cansaço. Os olhos, a acompanharem o chão, tinham certeza do caminho – é vital saber retornar a origem. Ele vai em seus pacatos passos. Sua cor se perde na poeira do entardecer. Quando for noite, ninguém o verá no caminho.
Letícia cansa de suas formigas...
- Onde ele está, mãe? Ele já foi embora...
A mãe descansada agora pode responder:
- Já foi filha. Olha! (apontando para longe, onde se perde a silhueta ereta.)
Ele caminha, sua fuga foi entregar-se a rotina para passar o tempo. Ir e vir sem esperar. Fugir...
Letícia acena um adeus. Despedidas infantis...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 13/06/2005
Código do texto: T24353
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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