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A AMIZADE

A AMIZADE

A amizade não encontra limites. Quando realmente surgem os limites, não se pode dizer que houve uma amizade. Foi casualidade, jogo de interesses ou coincidência de caminhos.

Fazemos amigos por nos identificarmos com eles. Mas também há amigos que nada têm a ver com a gente. Pensam e fazem tudo o que não pensamos e nem fazemos. Mas, por incrível que possa parecer aos olhos dos outros, são nossos amigos. Então, além da identificação, deve haver uma outra razão mais forte.

Alguns dizem que os amigos vêm de vidas passadas. Que se encontraram nesta vida para passarem a limpo os seus passados ou para ajudarem-se, uns aos outros, na missão que dizem cada um ter. Mas, se já reconheceram isso antes de vir, por que vieram? Mais lógico seria fazerem o acerto de contas antes de virem (mas aí não precisariam vir, não é mesmo?).

Alguns amigos, às vezes, nos colocam muito mais em confusão do que nos tiram. Tenho um amigo que diz que respeita mais seus inimigos do que seus amigos. Na verdade, segundo seu raciocínio, eles, os inimigos, são seus melhores amigos. Porque os inimigos não escondem as garras: arranham onde a carne é mais sensível. Põem os dedos nas nossas verdadeiras feridas. Exibem nossos defeitos
ao mundo todo e gritam para todos saberem das nossas deformidades. Os amigos, diz esse meu amigo, são os verdadeiros inimigos. Escondem as nossas falhas, impedindo-nos de consertá-las. Suavizam as nossas dores, impedindo-nos de aprender com os nossos erros. Mas - continua esse meu amigo, de uma coisa esses nossos amigos não se esquecem: quando reunidos com outros de nossos amigos, falam sobre nós como se fôssemos uns pobres coitados que tivemos a infelicidade de nascermos seres humanos, portanto pobres e falíveis seres em construção. Acho que, subliminarmente, esse meu amigo, ao me chamar de amigo, toma-me por inimigo. Mas se sou inimigo, sou seu amigo. Vai lá entender essa sua lógica!

A amizade parece vir cercada de outros elementos. Talvez seja uma forma de assumirmos e vivermos outras vidas sem necessariamente corrermos o risco de vivê-las, mas delas desfrutando o que há de melhor nelas. Por isso, temos uma amizade verdadeira quando nos sentimos felizes com as conquistas dos nossos amigos. E, de forma oposta, sentimos as suas dores como se fossem as nossas. Não existe amizade fria e insensível. Se conquistamos algo, e isso passa de forma indiferente por quem julgamos nosso amigo, ou nossas dores não provocam nele a mais leve tristeza, então não se pode falar em amizade.

Talvez a amizade seja medida através de graduações, como numa escala métrica. Há amigos verdadeiramente grandes cuja trena interior que carregamos é insuficiente para medi-los. Outros... bem, outros não deveriam ser chamados de amigos. São os primeiros a chegar nas nossas festas, mas não ficam no final para nos ajudar a limpar o salão. A esses dispensamos a trena e medimos no bom e velho olho. Aos outros não temos coragem de medi-los com receio de que nossa trena seja infinitamente pequena para essa empreitada.

Quer encontrar um verdadeiro amigo? Dispa-se das roupas e adornos que enfeitam o seu corpo, esqueça os títulos que você possui ou já possuiu, deixe de lado os objetos que a sociedade criou para medir a sua importância, inclusive o dinheiro, deixe de competir ou experimente a derrota, nem que seja por uma única vez, não reaja quando atribuirem a você esta ou aquela culpa, mesmo que infundada. Se neste momento uma voz se levantar para apoiá-lo, então você tem um amigo. Se nada acontecer, então, meu amigo, você pode estabelecer três hipóteses: a primeira, você não teve bom senso ao escolher as suas amizades; a segunda, você acredita que tem amigos, mas eles, os seus amigos, não acreditam que você seja amigo deles; a terceira, que raio de acordo é esse que você fez na outra vida que fez com que todo mundo viesse preparado para sacaneá-lo? Se nada aconteceu mesmo, siga o meu conselho: recolha rapidamente as suas roupas, adornos, títulos, objetos, dinheiro, se é que eles já não o fizeram. Não se esqueça de retomar as vitórias e de reagir às acusações. Infelizmente, no mundo atual, as pessoas se afastam daquilo que elas chamam "perdedores" . E, somente nós dois sabemos, perdedores somos todos aos nos descobrirmos sem amigos verdadeiros.

                                                        Paulo S. M. Carneiro
                                                               30.10.2000
Paulo Sergio Medeiros Carneiro
Enviado por Paulo Sergio Medeiros Carneiro em 20/09/2006
Código do texto: T244713
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulo Sergio Medeiros Carneiro
São Paulo - São Paulo - Brasil
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