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Dia de Concreto e de Borracha

    Senti uma dor de barriga desgraçada. Estava no carro, nervoso, queria chegar logo onde tinha que chegar, mas não sabia aonde. De repente, à tarde, depois de encher bem a barriga, me senti como um vidro, talvez um copo de vidro. Não sabia bem de que era o meu pensamento. Estava mole, sem vontade, meu corpo e eu juntos formávamos um monte de merda que boiava ao sabor das águas servidas. Aí me lembrei de uma criança, filha da portuguesa que morava ao lado, que me olhou com um jeito engraçado e sorriu, e desejei tanto ser ela, gozar daquela liberdade, pegar aquele pedaço de pau que não entendi bem o que era, que ela não sabia o que era, mas que certamente lhe dizia alguma coisa, machucar o meu joelho do jeito que ela se machucou, comer terra.
    Voltei meio cansado da escola, meio cansado do trabalho e meio cansado de mim. Quanta hipocrisia, quanta falsidade, quanta conversa fiada, quantas minhas palavras inúteis, eu um puto dum "nonsense", quanta bunda lá na escola, mas até a minha vontade de fuder passou. Ocorreu-me que um cara podia me encostar o cano do revólver no ouvido e me tirar o carro, meu precioso talão do BEG*, meus documentos e ainda me dar um tiro na bunda. E eu no hospital. Mas o seguro me dá um carro novo e devo ficar feliz porque ele não me matou. Agora é tratar dos documentos, o que é sempre uma merda! Depois vou pra escola, pro trabalho e tomo cuidado para não roubarem o carro outra vez.


Rio, 24/08/1973

*Banco do Estado da Guanabara, depois BANERJ,
Banco do Estado do Rio de Janeiro, que hoje
também já não existe mais.
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 21/09/2006
Código do texto: T245421

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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