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O muro

A festa popular mais concorrida naqueles tempos era, sem qualquer dúvida, a junina, que, às vezes, era realizada em julho ou agosto para a estranheza da criançada.
     Ruas enfeitadas com bandeirinhas multicoloridas. Barraquinhas de doces e salgados típicos: cuscuz, paçoca, pé-de-moleque, cocada, bolos de milho e de aipim, canjica, milho cozido, cachorro quente, pasteizinhos variados. Jogos de argola, pescaria, roletas, onde se disputavam maços de cigarro, apostando-se no seu time do coração.
     Balões, embora perigosos, ascendiam aos céus, acendendo as noites frias e limpas do tênue inverno carioca...
     Não faltavam a o quentão e as batatas doces, que eram assadas em fogueiras enormes. E “Pula a fogueira iá-iá / Pula a fogueira iô-iô / Cuidado para não se queimar / Olha que a fogueira já queimou o meu amor!”   Quadrilhas eram ensaiadas à exaustão – havia concursos e cada bairro ou comunidade procurava fazer o melhor e vencer.
     Sempre que possível, a turma procurava reproduzir essas comemorações em sua casas de quintal, longe dos apartamentos em que se vive confinado hoje.
     Uma dessas grandiosas festas do passado quase termina em tragédia, mas como comédia também é drama, o final foi hilariante.
     Carlinhos era um rapaz de família pobre, não era habituada a comemorar os aniversários, por absoluta falta de dinheiro, embora prometesse a todos, um dia, dar uma festa inesquecível.
     Sua casa era modesta, situada no alto de uma ladeira, em Quintino Bocaiúva, bairro da Zona Norte do Município do Rio de Janeiro. A vizinhança como se pode imaginar, era também humilde, e igualmente batalhadora: de um lado, Sr. João da Silva “o João Cenoura”, com sua pequena criação de coelhos, o que lhe rendia umas economias extras todo mês.
     - Esse é da poupança. – repetia aos bons vizinhos daqueles tempos.
     À direita, Vó Maria, senhora idosa e rabugenta, mas de coração grandioso e atitudes sinceras. A casa de Vó Maria ficava a uns quatro metros do piso da casa de Carlinhos e o muro que as separavam servia de parede para o galinheiro e a casinha do cachorro, que de tão velho não possuía mais as presas e sequer enxergava um palmo à frente do focinho. Ao Rex, chamavam-no carinhosamente de Gagá.
     Ricardo e Joãozinho, conhecedores das dificuldades por que passava a família de seu amigo, combinaram com Carlinhos que cada interessado em participar levaria um prato de doce e outro de salgado típicos, além de uma garrafa de aguardente para fazer batida de limão ou rum para um cuba-libre. Os refrigerantes seriam levados pelas moças.
     Cremilço, nessa ocasião, passava uns dias na casa de Ricardo que, sem alternativa, “teve” que levá-lo.
     Chegara a grande noite e a tão esperada festa teve início.
     Os participantes começaram a organizarem-se em pares, preparavam-se para a quadrilha. Carlinhos tinha duas primas gêmeas que eram muito feias e uma delas, para não ficar só, tratou logo de pegar o Cremilço, o que para ele foi a glória suprema, já que não se importava com qualidade:
     - Quanto mais, melhor. – repetia com orgulho indisfarçável.
     A garota era uma coqueteleira bípede. Roçava em Bebum com tanta ginga que parecia preparar um drinque. Os dois digladiavam, recostados no muro e quem passasse só via um.
     Quando tudo parecia bem, ouve-se um estrondo assustador. O muro desabara e os amantes aterrissaram no terreno de Vó Maria.
     Foi um Deus nos acuda. Gente correndo de um lado para o outro, sem saber ao certo como agir. Depois de alguma hesitação, alguém desceu e gritou:
     - Eles estão aqui! Bebum está com o nariz sangrando e a Jupira está desacordada.
     Desceram mais alguns rapazes para efetuarem o resgate e um deles, com uma ave na mão, berra:
     - Morreu a galinha! A galinha morreu!
     Nesse ínterim, a mãe de Jupira, Dona Elza, adentrava o lugar. E, assustada com a balbúrdia que se seguia, exclama chorando:
     - Minha filha morreu!
     A gargalhada foi geral. O incidente sério assumiu um ar de comédia, pegando a todos de surpresa, provocando em todos gozações e alguma discórdia, enquanto Dona Elza soluçava ao ver a galinha – perdão – sua filha desmaiada.
     A festa acabara. Os apaixonados foram levados para um hospital. Bebum quebrara o nariz e levara treze pontos na perna esquerda; Jupira, nada sofreu.
     Passadas duas semanas, Carlinhos telefona, da Bahia, para Ricardo, contando-lhe que havia acertado na Loteria Esportiva e, assim que retornasse, daria a tão prometida festança.
     Depois de falar com Joãozinho, Ricardo começou a pensar na sorte de seu amigo Carlinhos: o muro cai, o que é um desastre, em virtude de sua condição financeira... a seguir ganha um belo prêmio no jogo... Que sorte! – pensou.
     O muro...
     O muro!?
     Pegou o telefone e ligou para Bebum intimando-o a derrubar o seu.
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 14/06/2005
Código do texto: T24624

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Nel de Moraes