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O SILÊNCIO DE UM ADEUS




Para mim não faria diferença aqueles transeuntes comportando-se como um bando de formigas desordenadas. Era uma multidão de loucos que seria difícil, até mesmo para Freud,  tirar uma conclusão concreta sobre as suas teorias em comportamento humano.
Eu não fazia parte daquele cenário. Encontrava-me, como de costume, dentro de um ônibus que seguiria até São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos. Eu era apenas um telespectador, um observador, ou mesmo um tímido figurante que não desejava mostrar o rosto diante daquela "massa desvairada".
Como já disse antes, não encontrava-me na multidão. Entre eu, observador, e aquela turma de desvairados, existia nada mais que o vidro temperado da janela daquele coletivo.  Mas, através daquele simples, sujo, arranhado e frágil vidro existia uma barreira... aparentemente, dois mundos; eu, na minha solidão, vencido pelo cansaço do labutar diário; eles, na ânsia de festejar a liberdade longe dos pais, ao lado dos seus namorados, esposas ou mesmo amantes.
Pessoas que corriam a fim de não perder a passagem. Pessoas que eclodiam de vários pontos da cidade do Rio de Janeiro e aglomeravam-se na rodoviária Novo Rio, e de lá , pegariam ônibus tentando agasalhar-se em outras cidades. Fossem elas na região dos Lagos, Serrana ou mesmo em pequenos vilarejos do interior ou outros estados do Brasil.
Na situação em que encontrava-me, existia centenas ou talvez, milhares de pessoas. Era um ritual para alguém que como eu, que diariamente pagava uma penitência dentro de um ônibus na Avenida Brasil com o calor chegando na casa dos quarenta e dois graus. Com freqüência eu me sentia amargurado devido os engarrafamentos por carros velhos que davam alguma pane,  fazendo com que a espera fosse ainda mais insuportável.
Eu já chegava na rodoviária com os nervos à flor da pele e ainda teria que lutar por uma passagem com aqueles loucos turistas. Eu cheguei a tê-los como um dos maiores inimigos. Seria capaz de esganá-los, maltratá-los, matá-los!
Assim que eu chegava à rodoviária,  já  me sentia em um Campo de Batalha. Cada pessoa era olhada, por mim,  como um possível adversário, um rival, um inimigo dos mais perigosos.
Sem me incomodar com o que iria dizer o motorista, mais que depressa tratava de acender um  cigarro hollywood e fazia questão de tragá-lo, saboreá-lo, exalar a sua  irritante fumaça. Não que eu fosse um fumante; tudo aquilo era com o objetivo de afrontar aquele que, por acaso ou infelicidade, ocupasse a poltrona ao meu lado.
Certa tarde, após o término do verão, rodoviária mais tranqüila, eu não tinha aqueles adversários disputando cada palmo da rodoviária, cada assento no ônibus; eu não tinha nem mesmo vontade de fumar; mas, como todos nós sabemos, os nossos adversários, queiramos ou não, sempre notamos a sua presença. Até mesmo no ar conseguimos detectá-los e foi justamente um desses adversários que me chamou a atenção; não um homem, mas sim, uma mulher! Uma velhinha, que todos os dias estava ali, na rodoviária.
Passado o rush do verão e ali estava ela, tentando fazer das minhas viagens, mais uma vez, em um inferno.
De início imaginei nada demais...  Só mais uma louca, agora isolada da multidão.
Fiquei a observando e notei; após chorar por alguns minutos, a mesma enxugava as lágrimas do rosto e dirigia-se à saída da rodoviária.
Pensei:
– Ela está aqui a despedir-se de alguém, algum parente... depois, outra interrogação: não seria possível alguém ir até a rodoviária todos os dias e fazer as mesmas cenas de choro.
Uma certa tarde, chegando à rodoviária mais cedo, comecei a observá-la e vi que ela não tinha o olhar fixo em um único passageiro; ela olhava os passageiros, um por um, e os seus olhos lacrimejavam. Era como que ela estivesse se despedindo de parentes mais íntimos; pude até perceber que aqueles passageiros não  eram seus parentes e sim, pessoas comuns, como eu!
Intrigado, a segui naquela tarde e outras tardes também. Descobri pouco coisa; a sua moradia... Era um lugar gélido nos invernos e calorentos nos verões. Barulhento, devido aos veículos que por cima passam. As anteparas, eram de papelão que ela mesma recolhia pelas ruas da cidade.
O seu vestido era sempre o mesmo e servia para aquele "ritual" de chegadas e despedidas do seu alguém que nunca fora, do seu alguém, que nunca regressaria.
Descobri que a mesma não tinha parentes. Era sozinha no mundo, e que morando próximo a rodoviária, sentia que todas aquelas pessoas eram seus parentes e por isso ela ia despedir-se diariamente. Ao ver as pessoas partirem, ela chorava. Outro motivo era em saber que assim que o seu velho vestido estivesse puído, seria proibida, pelos guardas, de continuar indo ver os ônibus partirem; dito e feito!
Por quase cinco anos eu a via naquele ritual de chegadas e despedidas diárias. Hoje, a Novo Rio, para mim, não é mais a mesma: os guardas são os mesmos; os turistas mudam de caras, mas na realidade, são os mesmos.
Só aquela criatura de face tristonha que eu sempre me deparava a despedir-se, como que desejando boa viagem aos desconhecidos passageiros, não mais se faz presente; desapareceu sem  despedir-se, sem ao menos dizer um adeus.
Há quase três anos não sinto mais aquela presença tão familiar aos passageiros da Novo Rio. Não sinto mais a presença daquela pessoa que no início nada significava pra mim, e hoje, faz grande diferença mas que eu, na minha estúpida arrogância, não me dei a chance de conhece-la melhor, trazendo-a para morar comigo e brincar de VOVÓ COM OS MEUS FILHOS!


Carlos carregoza

Todos os meus trabalhos estão registrados na Biblioteca Nacional-RJ.
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 22/09/2006
Código do texto: T246343
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
102 textos (5968 leituras)
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carlos Carregoza