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TODO E.MAIL DE AMOR É RIDÍCULO

Fora ao seu encontro em um restaurante perto do escritório. Parecia urgente e, amiga que era, não podia deixar de atender ao chamado. Preocupou-se ao ver a amiga: cenho franzido, cara de preocupação e apenas um risinho ensaiado como cumprimento. Seguiu-se uma conversinha social e um silêncio um pouco longo demais. A amiga gaguejou algo e continuou:
- Não vai dar mais. Definitivamente, está decidido. Eu e o Guto. Impossível. Melhor agora do que tarde demais...
Seguiu com outras palavras, um enorme discurso que repetia a mesma coisa. Definitivamente, o namoro com o Guto estava moribundo e sofreria eutanásia brevemente. Já estava decidido.
Enquanto a escutava, ia pensando o que teria provocado a decisão. E havia de ser algo grave pela seriedade com que ela falava. Tinha um ar de funeral. Circunspecta, sorumbática e macambúzia. Gostava dele e tal, mas aquilo era demais. E, com o passar do tempo, com certeza, iria ficar pior e aí então, seria ainda mais doloroso o rompimento. Eu olhava minha amiga tentando fazer conexões, entender alguma coisa. Já nos conhecíamos há muito tempo. Era uma moça bonita, estudada, bem sucedida no trabalho, muito articulada e bem informada. E prática, muito prática. Do Guto, sabia o que conhecia desde que começou o namoro. Boa praça, elegante, educadíssimo, gentil, bom papo e principalmente, apaixonadíssimo pela Vera. Não me passava pela cabeça que fizesse qualquer coisa grave suficiente para que ela quisesse romper. Até onde eu podia saber, ela andava muito entusiasmada com o namoro.
- Ele está viajando, né? Você disse que ele ficaria fora a trabalho por um mês ou algo assim...
- Exatamente. É aí que começa...
           Dei asas à imaginação. Ele andou pulando cerca na viagem e ela soubera. Pronto. Estava explicada a reação.
- E como foi que você soube?
- Soube o quê?
- Ué...ele andou pulando a cerca, não foi?
- Imagina, ele seria incapaz...
- Então, não entendi nada...
- Me mandou um e.mail. Olha só...
Comecei a ler. Falava da saudade que sentia, como a cama era vazia e fria
sem ela, como o dia era sem graça sem seu sorriso, como doía a distância e um monte de coisinhas doces que quem já se apaixonou conhece. Aí mesmo é que eu desentendi de vez.
- Você recebe isso e resolve terminar? Que foi, Vera? Andou bebendo logo de manhã? O cara te adora!
- An-han...já viu coisa mais brega? Parece letra de breganeja. Não dá...Isso ainda fica pior. Já pensou se resolve falar estas coisas? Que mico...
- Isso é amor, minha nega...já ouviu falar? Qual o problema?
- Amor , vá lá...breguice, definitivamente não. É ridículo. Sou uma pessoa que prima pela elegância. Isso aí é muito kitsch...
Depois de pensar um pouco, achei que era hora de usar uma linguagem que ela conhecesse:
- Mas, Vera, todos os e.mails de amor são ridículos...
- Tem dó, amiga...querer atualizar Fernando Pessoa não funciona.
Não teve jeito. Vera era uma moça muito ortodoxa. As cartas de amor podem ser ridículas. Mas no século XXI, com internet, globalização e o escambau...e.mail de amor não pode ser ridículo. Definitivamente não. Game over, Guto.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 15/06/2005
Código do texto: T24738

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154036 leituras)
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Débora Denadai

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