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STREPTEASE


STREAPTEASE

              O temporal desabou inesperadamente, a jovem senhora falava ao telefone com voz aflita, alheia às águas que respingava sobre ela e a criança em seu colo. Tinha como proteção apenas a cúpula do orelhão. Com dificuldade tentava prender o fone entre o pescoço e o ombro esquerdo. Acriança soluçava e tossia convulsivamente.
Do outro lado da rua e protegido pela cobertura de minha varanda, eu presenciava esta que parecia uma cena comum e corriqueira e que ao meu ver acontecia a todo instante.
Distante apenas alguns metros, eu consegui ouvir entre trovões e relämpagos, uma frase dita pela jovem mãe ao telefone:
----Por favor, nos ajude. A enxurrada invadia a calçada, a mulher levantava as pernas alternadamente e batia os pés no chão encharcado, colocou o fone no gancho, a criança se contorcia e tossia desesperada. Eu me preparei para socorre-las, entrei correndo em casa, apanhei uma capa e um enorme guarda-chuva, num minuto eu já estava de volta me preparando para atravessar a rua, olhei em direção ao orelhão e o que vi, me deixou estarrecido: a mulher com gestos bruscos tentava com certa dificuldade se livrar das roupas, já havia retirado a blusa verde, deixando a mostra seios médios e pálidos, com dificuldade tirou a saia, olhava para os lados receosa de estar sendo vista naquele ato inusitado: seminua, falando ao telefone com a criança no colo. Mas com aquele temporal, jamais alguém ousaria sair na rua, isto parecia tranqüiliza-la, pois continuou com seu estreaptease, que para mim parecia estranho, até aquele momento. Por mim eu ficaria toda a noite apreciando aquele show de nudez, pois a mulher estava vestida apenas com sua peça íntima que cobria suas partes baixas. Fiquei sem ação, talvez ela não quisesse ser interrompida ou mesmo ajudada por um homem, mesmo por que eu perdi a disposição de ajuda-la, após ter presenciado seus próximos gestos: com rapidez envolveu a criança com suas roupas, de minha varanda eu via seu corpo branco e iluminado, pelos relâmpagos, a mulher aconchegou a criança em seu peito, que agora não chorava nem tossia, parecia ter se acalmado. Naquele momento me senti envergonhado e cheio de remorsos, pois meu instinto reagiu ante á visão daquele corpo belo e seminu, desejos carnais afloraram, mas como que num passe de mágica, eles me abandonaram, dando lugar a um sentimento mais profundo, como o amor, o amor daquela mãe, que não hesitou um instante em se despir para proteger aquele pequeno ser que agora dormia tranqüilamente em seus braços. De repente ouvi um ronco de um potente motor, a jovem mãe também ouviu, pois olhou com interesse para o início da rua, e de minha varanda eu pude ver seu rosto se iluminar, gesticulou energicamente em direção ao veículo, este parou e algumas pessoas saltaram com rapidez. Uma moça que parecia ser médica segurou a criança com delicadeza e a levou para dentro da ambulância, enquanto outra, com um lençol cobriu a nudez da mãe, que parecia sorrir aliviada.
Lágrimas rolaram em meu rosto fazendo-me recordar certa frase:
Nem tudo é o que você pensa que é – eu que pensava estar assistindo um show de estreaptease, na realidade acabei de assistir o show do amor de mãe.

Obrigado a todos por ouvir e ler.
Abraços – Daniel
São José dos Campos, 25 de Dezembro de 2000.

daniel de castro
Enviado por daniel de castro em 23/09/2006
Código do texto: T247508
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Sobre o autor
daniel de castro
Jacareí - São Paulo - Brasil
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