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                Os eclipses 
             e o fim do mundo

     1. Eclipses do sol e da lua vêm acontecendo com surpreendente frequência. O chato é que nem sempre a gente pode acompanhá-los a olho nu. Dias atrás, tivemos mais um solar, o último em 2006, segundo nossos atentos astrônomos.
       2. Acordei com os olhos no céu, certo de que alcançaria o fenômeno em toda sua dimensão, desdobramento e deslumbramento. Não foi possível. Nuvens intrometidas impediram-me de observá-lo como eu queria.
Fiquei frustrado. Na minha idade, essas maravilhas siderais passam a ser imperdíveis. Resta-me esperar pelo próximo eclipse.
     3. Hoje, quando se fala em eclipses, ouve-se que eles são, apenas, "um belíssimo espetáculo" no céu. Nada mais do que isso. Mas nem sempre foi assim: os eclipses já amedrontaram. 
     4. Este pífio escriba,  menino e matuto, morria de medo dos eclipses. No sertão de minha infância, idos de 1940, eles eram vistos como anunciadores do fim do mundo.
     5. Naquele tempo, sabia-se muito pouco do que acontecia no espaço sideral. Ainda não existiam as possantes sondas espaciais espionando o Universo; desvendando-lhe os mistérios; revelando-lhe os segredos.
     6. Na minha cidade, no alto sertão do Ceará, tive a sorte de ver um eclipse total do sol. Acho que no início da década de 1940. 
     7. No dia do eclipse, a manhã era muito clara, e fazia um calor intenso. De repente o sol começou a esfriar e o céu a empalidecer. A manhã, até então resplandecente e queimosa, foi se transformando, lentamente, num ameno fim de tarde!
     8. Enquanto a penumbra e uma inesperada e fria brisa baixavam sobre a Terra, o povo de minha cidadezinha, cheio de interrogações, entrava em  pânico. Em minha casa, ficamos todos apavorados. Minha mãe reuniu os filhos, e, ao lado do meu pai, recitou jaculatórias e rezou o Terço.
     9. O sol aos pouco foi se apagando. O fim do mundo poderia estar chegando... muito antes do tempo "fixado" pelo piedoso vigário de minha paróquia, nos seus gongóricos sermões domingueiros, falando sobre o pecado mortal e o juízo final com sua voz rouca e ameaçadora.
     10. Enquanto o mundo começava a escurecer, os galos emudeciam; as galinhas procuravam os poleiros; o gado voltava aos currais; e os pássaros buscavam abrigo nas viçosas árvores que enfeitavam as ruas da minha cidade. Vi mulheres com seus rosários nas mãos, e o velho cura, alvoroçado, fazendo prolongadas orações.
     11. Soube depois, que os entusiasmados e irrequietos comunistas do lugar tinham sido flagrados rondando os confessionários e a sacristia da igreja de Senhora Sant´Ana, a santa  padroeira.
     12. Nada aconteceu, além de um surpreendente e estranho "anoitecer", que durou alguns minutos, numa manhã sertaneja, em dia de eclipse total do sol.
     13. Enquanto o sol voltava a brilhar, os galos cantavam; as galinhas abandonavam os poleiros, o gado retornava ao pasto; e os passarins, trilando, ganhavam as acácias que ornamentavam a pracinha.  As beatas, aliviadas, guardavam seus rosários e o vigário, sorridente, da janela da casa paroquial, bradava: "Graças a Deus! Graças a Deus! O mundo não acabou!"
     14. E os comunistas? Exibindo na lapela de seus surrados casacos a foice e o martelo, reiniciavam a velha luta, ressaltando, com vigor redobrado, as virtudes do companheiro Luis Carlos Prestes.
     15. 1940. Eu vivia, como disse, num sertão distante e desinformado. Um modesto rádio movido a corrente elétrica, era minha única fonte de notícias. Quando luz apagava, o radio silenciava; e o sertão e eu ficávamos longe de tudo, sob a luz dos candieiros.  Era, pois, compreensível que nós, matutos, tivéssemos medo de relâmpagos, de cometas, da estrela cadente e de eclipses.
     16. O cometa Halley, por exemplo, assustou muita gente. Amigos que, em 1910, o descobriram na hora do crepúsculo, disseram-me que tremeram de medo. E completaram: "O povo apostava no fim do mundo, se o rabo do Halley tocasse, ainda que de leve, na Terra." O cometa se foi sem molestar ninguém, prometendo voltar em 1968. E voltou.
     17. Chateado com tudo o que está acontecendo por aqui, ele passou bem distante do nosso complicado planeta.  Poucos puderam vê-lo; poucos puderam revê-lo. Agora, só em 2046, asseguram os astrônomos. Se até lá, digo eu, a Terra ainda existir.
     18. Concluo este sidéreo papo contando-lhe, meu bom leitor, esta historinha que colhi num livro de Machado de Assis.
     19. Segundo o Bruxo, vivia em Alagoas um frade virtuoso e probo, cujo nome ele omitiu. O exemplar sacerdote dedicava boa parte do seu tempo a benzer velas e fósforos dos fiéis, que se declaravam com medo do fim do mundo.
     20. Quando indagado se o mundo ia mesmo acabar, o esperto monge, com serenidade, respondia: "Eu não sei. Mas a Deus nada é impossível." E, intangível, prosseguia abençoando as velas e os fósforos que lhe levavam, diariamente, suas amedrontadas ovelhas.
     21. Machado não confirma se o velho cura cobrava algum dinheiro pelo seu trabalho. Eu, entretanto, admito, que o experiente vigário devia receber u´a modesta espórtula; grana suficiente para pagar sua santa xepa, e comprar uma batina nova no Natal...      

 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 24/09/2006
Reeditado em 10/10/2017
Código do texto: T248133
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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