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        Os eclipses 
                e o fim do mundo


     
Eclipses do sol e da lua vêm acontecendo com surpreendente freqüência. 
            O chato é que, nem sempre, a gente pode acompanhá-los a olho nu.
          
            Dias
atrás, tivemos mais um eclipse solar, o último em 2006, segundo nossos atentos astrônomos.
            Acordei com os olhos no céu, certo de que alcançaria o fenômeno em toda sua dimensão e desdobramento. Não foi possível. Nuvens intrometidas impediram-me de observá-lo como eu queria.
            Fiquei frustrado. Na minha idade, essas maravilhas siderais passam a ser imperdíveis.
            Vou esperar o próximo.
            Hoje, quando se fala em eclipses, o que se ouve é que eles são, apenas, "um belíssimo espetáculo".
            Mas nem sempre foi assim: os eclipses já amedrontaram. 
             Este pífio escriba, na sua mais feliz quadra de vida, ou seja, quando ele era um anônimo e inocente matuto, morria de medo deles.
              No Sertão de minha infância, idos de 1940, os eclipses eram vistos como anunciadores do fim do mundo.
              Naquele
tempo, se sabia muito pouco do que acontecia no espaço sideral. Ainda não existiam as possantes sondas espaciais espionando os céus; desvendando-lhes os mistérios; revelando-lhes os segredos.
               Na
minha cidade, no alto sertão do Ceará, tive a sorte de ver um eclipse total do sol. Acho que no início da década de 40, do século passado.  Acho.
               No
dia do eclipse, a manhã era muito clara, e fazia um calor intenso. 
               De repente o sol começou a esfriar e o céu a empalidecer. 
               A manhã, até então resplandecente e queimosa, foi se transformando, lentamente, num ameno fim de tarde!
               Enquanto
a penumbra e uma inesperada brisa baixavam sobre a Terra, o povo de minha cidadezinha, cheio de interrogações, entrava em discreto pânico. 
               Em minha casa, ficamos todos apavorados.
               Minha mãe reuniu os filhos, e, ao lado do meu pai, recitou várias jaculatórias.
               O sol
aos pouco foi se apagando. 
               O quê? O fim do mundo poderia estar chegando... E muito antes do tempo "fixado" pelo piedoso vigário de minha paróquia, nos seus gongóricos sermões domingueiros, falando sobre o pecado mortal e o juízo final.
               À medida que o mundo escurecia, os galos emudeciam; as galinhas procuravam os poleiros; o gado voltava aos currais; e os pássaros buscavam abrigo nas viçosas árvores que enfeitavam as ruas da cidade.
             Vi mulheres com seus rosários nas mãos, e o velho cura, alvoroçado, fazendo prolongadas orações.
             Soube depois, que os entusiasmados e irrequietos comunistas do lugar tinham sido flagrados rondando os confessionários e a sacristia da igreja de Senhora Sant´Ana, a  padroeira.
           Mas nada ocorreu, além de um surpreendente "anoitecer", que durou alguns minutos, numa manhã sertaneja, em dia de eclipse total do sol.
            Enquanto o sol voltava a brilhar, os galos cantavam; as galinhas abandonavam os poleiros, o gado retornava ao pasto; e os passarins, trilando, ganhavam as acácias que ornamentavam a pracinha.
         As beatas, aliviadas, guardavam seus rosários, e o vigário, sorridente, da casa paroquial, bradava: "Graças a Deus! Graças a Deus! O mundo não acabou!"
         E os comunistas? Exibindo, na lapela de seus surrados casacos, a foice e o martelo, reiniciavam a velha luta, ressaltando, com vigor redobrado, as virtudes do companheiro Luis Carlos Prestes.
         1940. Eu vivia, como disse, num Sertão distante e desinformado.
             Um modesto rádio, a corrente, era minha única fonte de notícias. Não perdia o Repórter Esso. 
             A luz ia embora, o radio silenciava, e o Sertão e eu ficávamos longe de tudo.  Era, pois, compreensível, que nós, matutos, tivéssemos medo de relâmpagos, cometas, da estrela cadente, e de eclipses.
              O cometa Halley, por exemplo, assustou muita gente.
             Amigos que, em 1910, o descobriram, na hora do crepúsculo, disseram-me que tremeram de medo. E completaram: "O povo apostava no fim do mundo, se o rabo do Halley tocasse, ainda que de leve, na Terra."
           O cometa se foi sem molestar ninguém; e prometendo voltar em 1968. E voltou. 
           Chateado com tudo o que está acontecendo por aqui, ele passou bem distante do nosso complicado planeta.  Poucos puderam vê-lo; poucos puderam revê-lo. 
          Agora, só em 2046, asseguram os astrônomos. Se até lá, digo eu, a Terra ainda existir.
          Concluo este sidéro papo, contando-lhe, meu bom leitor, esta historinha que li num livro de Machado de Assis.
           Segundo o Bruxo, vivia em Alagoas um frade virtuoso e probo, cujo nome ele omitiu.
            O exemplar sacerdote dedicava boa parte do seu tempo a benzer velas e fósforos dos fiéis, que se declaravam com medo do fim do mundo.
            Quando era indagado se o mundo ia mesmo acabar, o esperto monge, com serenidade, respondia: "Eu não sei. Mas a Deus nada é impossível." 
             E, intangível, prosseguia abençoando as velas e os fósforos que lhe levavam, diariamente, suas amedrontadas ovelhas.
            Machado não confirma se o velho cura cobrava algum dinheiro pelo seu trabalho.
           Eu, entretanto, admito, que o experiente vigário devia receber u´a modesta espórtula; grana suficiente para pagar sua santa xepa, e comprar uma batina nova no Natal...      


Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 24/09/2006
Reeditado em 16/03/2009
Código do texto: T248133
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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