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PESCANDO

Hoje a chuva veio do Norte, primeiro chegou o vento que entrou correndo, percorrendo todas as janelas, deixando as cortinas em reboliço, batendo portas e levando o calor para fora; metálica, avisou no telhado que chegara molhou a varanda e, depois, despencou pesada fazendo cachoeiras ao meu redor.

Consultei os horizontes: entardeceu precocemente, o chumbo do céu trouxe a sombra para dentro da casa; as pinturas mudaram de cor e o tempo passou a correr nas águas, em direção ao rio...

Pensei nas distâncias, nas tardes de sábado com o perfume das namoradas, nas rodas de amigos nas calçadas, na música, nas prosas, nas cervejas geladas, no relógio da Matriz que sempre às 18 horas de todos os sábados chamava de todos os lados, como numa correição, os seus fiéis; e no porquê de eu estar aqui, continuei pensando...

Apanho a capa de feltro preta, o chapéu desabado, algumas iscas, a caixinha de tralhas e assobio:
- Tigrinha!
- Lobo!
- Tupi!...
Esse último não viria, ficou bem antes das tardes de sábado ser povoadas de namoradas... Mesmo assim, ainda o chamo quando preciso do menino em mim: é como abrir um portal no tempo onde saltamos para dentro no próximo passo... Passa o Lobo batendo o seu rabo nas minhas pernas, marchando sobre a água que escorre; fica a Tigrinha andando ao meu lado e os meus pés descalços se vão pela enxurrada...

Aqui os perfumes são outros: essências de ervas, de flores, de cascas de frutas, da terra molhada, das relvas, da beira de rio... Só o frescor se parece o mesmo que o encontrado depois das rendas, depois da noite esgotar os seus encantos, e o esperado querer romper as amarras do desejo contido à luz do dia, de dois querendo se fazer um na mais sublime descoberta...

A musicalidade é feita de vento, de chuva caindo, de marulhos de águas correntes, dos passos dos cães, dos pássaros tantos e seus rituais de tempo e lugar: ao amanhecer do dia: Nhambus, Perdigões, Bem-Te-Vis, Joões-de-Barro... Quero-Quero não tem hora, Periquitos, Papagaios, Araras, desde que amanhece até que anoiteça acontecem por toda parte, inesperados bandos... Ao entardecer é a vez do Nhambu se repetir, pia o Perdigão, na mata o Macuco e tantos outros cantos se fazem ouvir...

No rio chega o fio d’água antes de mim e escreve um risco de areia na transparência, ora verde, ora azul, da água que desce ligeira para um dia chegar ao mar em Santarém... Pesco um, dois, três Lambaris na boca da sanga, acomodo a tralha no jirau, os peixinhos na cumbuca com água, o lampião no seu lugar, a Tigrinha se deita à esquerda, debaixo do banco de tábua, o Lobo fica a um canto, sentado, só deitará mais tarde depois de farejar e escutar tudo o que é novidade... Três linhas vão para o pé-da-ceva iscadas com milho verde; preparo a linhada de mão, pouco peso, um carretel inteiro, anzol de perna comprida, um Lambari e lanço um pouco para cima no fio d´água: espero a Matrinchã... A primeira linhada sempre é boa, os peixes ainda não sabem que estamos ali... O tempo agora corre na ponta da linha, de cima para baixo até esticar, recolher, lançar novamente... E pára quando a fisgada estica a linha e começa o jogo do solta linha, recolhe linha, amortecer os golpes no balanço do braço... Deu Bicuda!
A segunda linha puxa... Atenção e sensibilidade na ponta dos dedos: - Pegou! Pegou!... Vamos lá bichinho, por aqui, por aqui... Isso, vem, vem... É Piau: já tenho isca para mais tarde... Volto ao fio d’água, isca viva. De novo o tempo aparece no bailado da linha... De repente pára! A puxada é forte, a luta é boa, asperge a água prateada, salta e cabeceia, mergulha e puxa... Se não molho os dedos, a linha os queima e os corta, mesmo assim, tenho marcas em xis no indicador da mão direita e cicatrizes de alguns cortes... Desta vez é ela! E a tarde passa... Arrumo a linhada para a noite: maior chumba, anzol barra 10, castor...
Jaó piou, Nhambu também, a chuva parou faz tempo... Faz tempo que eu venho aqui para pescar e pensar; penso até que pescar é intuitivo e funciona melhor enquanto eu penso... Às vezes, uso os sons que me cercam: cigarras, pássaros, pererecas, sapos, o vento... E vou ficando em silêncio e vendo o mundo e seus movimentos: lá fora Cora morreu, a Nave explodiu, e o mundo adoece: os donos do poder semeiam sementes de soberba, o terror cresce, cresce a AIDS, a miséria; a Terra treme, seca, inunda... As ideologias pesteiam a mente, o coração do Homem se corrompe, apodrece...
Uma Anta atravessa o rio, anoitece, fica frio... Grilos, mil grilos, os grilos da noite; puxa forte a linha, briga de fundo, briga de fôlego, ergo o pavio, pulo na areia: bela peleja, ronca forte o Cachara...
Deixo as tralhas para amanhã, apanho o lampião e os peixes: Tigrinha vai à frente, Lobo logo atrás... Algumas nuvens se afastaram mostrando estrelas. Lembrei-me do Halley e do tempo em que eu calculei que eu já seria um velho quando o visse... Cada coisa que pensa uma criança...
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 25/09/2006
Reeditado em 09/12/2007
Código do texto: T248582

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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