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Em Busca do Que Perdemos






           O dia estava chuvoso e o sol, provavelmente, não apareceria. Após ter andando a pé por quase todo o centro do Rio, me assustando ao olhar o céu e os meus olhos não alcançarem os topos dos arranha-céus, vi que, depois de muito andar, eu nada encontrava–embora eu nada estivesse procurando.
            Eu andava à toa. Meus passos eram lentos e incertos. Olhos estranhos me fitavam  e pareciam virem  ao meu encontro como se me acusassem. Cada um do seu jeito; por suas origens; nacionalidade, ou mesmo seus problemas pessoais. Cada um daqueles transeuntes tinha o seu modo de viver, querer, amar, odiar... tinha o seu próprio mundo.
            De repente, por acaso, encontrei-me na Praça XV de Novembro. O  que fazer? Para onde ir? Nem eu mesmo sabia. Já que estava sem destino, debrucei-me sobre uma pequena mureta do cais e comecei a observar um velho que ali pescava.
            Uma gaivota chegou próximo à isca que fora jogada pelo pescador e o anzol tocou a  água antes de ser alcançado pela ave.
             A água estava escura. Provavelmente, pelos desembocadouros dos esgotos que ali existem. O que mais me chamava a atenção era a paciência do velho; imaginei que aquele homem estivesse naquele local por muito tempo, pois, as iscas sobre seus apetrechos de pesca estavam ressecadas mesmo o dia estando frio e úmido.
            Fiquei naquela observância por quase duas horas. O velho estava protegido por sua japona escura de nylon e na esperança de uma vida dominada.
            Muito tempo de pescaria e nem sinal de peixe, o velho continuou a jogar o anzol nas turvas  águas da Baía da Guanabara, mas, sem ter êxito.
           Desenganado ou cansado, o homem resolveu ir embora. Possivelmente levando em sua companhia a certeza do seu azar. Não só o homem tinha acreditado no azar, como eu também acreditei.
          Sem mais encontrar pessoas ou pescarias fracassadas para observar, resolvi ir a Niterói.
           Lembro-me exatamente o nome da barca que me levaria até aquela bela cidade. Itapuca. Isso mesmo! O nome da barca era Itapuca.
           O som da campanhia  era o sinal que a mesma barca zarparia em poucos minutos. Assim que a barca zarpou, um aerobarco passou a bombordo da embarcação em alta velocidade e sobre ela, um velho Eletra  que certamente pousaria no aeroporto Santos Dumont.
            Embora estivesse me distanciando do cais, percebia que a  água da Guanabara continuava escura.
            No cais do Arsenal da Marinha, um marujo dirigia-se à Ilha Fiscal–um pequeno castelo–, onde outrora fora realizado o último baile Real no Brasil. Ao fundo, vi a ponte Costa e Silva (Rio x Niterói) e, olhando em direção à boca da barra, o bondinho do Pão-de-açúcar e um pouco mais atrás, o Cristo Redentor que parecia abrir os braços dando boas-vindas e a acolher todos os forasteiros.
           A cada instante em que me distanciava, sentia que o Rio ficava  mais belo. Eu nunca o tinha observado com tantos detalhes, com tanta perspicácia. Naquele momento eu senti como que estivesse perdendo para sempre algo ou pessoa que eu mais amava mas, por medo, orgulho ou vaidade, não encontrava as palavras de uma paixão adormecida, uma paixão contida.
           Dirigi-me até a popa. Os movimentos das hélices, embora eu não as visse, girava a  água que vinha logo atrás da embarcação em forma de redemoinhos, e no mesmo redemoinho surgiu uma guimba de cigarro que alguém, irresponsavelmente, lançara ao mar. Virei o rosto e deparei-me  com uma jovem. Lancei-lhe um olhar de censura e ela não viu ou fingiu não vê-lo. Ela não teria notado a minha reprovação?–pensei.
            Vendo que ela não se comovera com o meu olhar de censura, olhei outra vez para o mar e vi a guimba que seguia logo atrás da barca pelo empuxo da  água. Pensei: – Como as pessoas são práticas: se desfazem das coisas que não lhe são úteis com simplicidade sem imaginar, que para outras, são ainda mais inúteis.
             Estava navegando a aproximadamente quinze minutos em uma viagem de mais ou menos vinte e cinco. A cor da  água continuava escura e poluída; embalagens plásticas de detergentes, latas de cervejas, vidros e outras coisas mais se faziam presentes no cartão postal que eu presenciava ao vivo. Pude então perceber o porquê do homem não ter fisgado um único peixe; havia vários peixes que boiavam, mortos, misturados em manchas de óleos.
            Me entristeci. E a barca, àquelas alturas,  já  estava chegando. Com passos indecisos, posso dizer, passos trôpegos, desci em Niterói. A cidade estava quase deserta. Por mais displicente que eu me encontrasse, ouvia os gritos dos ambulantes que tentavam vender seus  produtos. Aqueles gritos martelavam em minha cabeça agredindo meus tímpanos.
             Depois de andar pelo centro de Niterói, por ruas sujas e desertas, um garoto aproximou-se pediu-me um trocado para comprar pão. Assim que entreguei-lhe a moeda, ele encostou um canivete em minha barriga e disse que queria todo o meu dinheiro, e que eu não me mexesse, pois, já  matara dois–ameaçou-me.
            Meu Deus! Tento fazer o bem, o que recebo?–interroguei-me e esmoreci. Sem ter para onde ir ou mesmo com quem conversar, desolado, como  encontrava-me, resolvi voltar e fiz o mesmo percurso.
            Os mesmos ambulantes continuavam com seus gritos estridentes e ofereciam passagem para o céu, sem falar em sogra santa.
            Às alturas daqueles acontecimentos já me encontrava cansado, entristecido e destruído  moralmente  por tudo  aquilo que acabara de ver e passar naquela tarde.
            Os homens tinham perdido a sua própria identidade, seu caráter, o seu próprio modo de sobrevivência. Acreditar na humanidade, por quê? Não! Os homens não respeitam e não merecem respeito–foram as minhas frases em pensamentos.
             Em frente ao terminal das barcas que fazem o trajeto do Rio x Niterói, encontra-se a estátua de um índio; um monumento ao Araribóia. Sentei-me no banco abaixo do pedestal, a fim de descansar um pouco e pude notar que alguém me observa à distância.
             Meio desconfiado o alguém aproximou-se e ofereceu-me um pedaço de pão. Eu, ainda surpreso, antes mesmo de ter o reflexo da rejeição, peguei aquele alimento a mim servido. O homem estava desconfiado, possivelmente, por não me conhecer. Ele continuou a entregar a alguns mendigos os pães  que trazia em um saco plástico.
             Mas por que ele também me entregou aquele pedaço de pão? Olhei para meus trajes e ri. Eu estava muito sujo e cabelos assanhados. E, um mendigo, que estava próximo, me falou  em um tom de cumplicidade, que eu voltasse todos os dias naquele local pois, aquele homem sempre vinha ali, trazer-lhes alimentos, chovesse ou não.
             Olhei para o horizonte e então percebi que a noite já caíra na Guanabara sem que eu tivesse tomado conhecimento. Entreguei o pão aquele mendigo e fiquei a observar as luzes que refletiam na água. Foi naquele instante que percebi: a Baía da Guanabara, subjugando  aquelas crueldades que lhes fazem, como que em protesto e sapiência, resplandecia qual uma estrela cadente; única, porém‚ com mais brilho, suavidade e beleza!
            Todo aquele brilho e beleza pareciam me dizer que, por mais problemas e decepções no nosso dia–a–dia em nossas vidas, só mesmo a tolerância, bom senso e compreensão, nos mostrará que a vida é bela, que podemos e devemos vivê-la; pois, só assim, conseguiremos ser FELIZES!



Carlos Alberto de Carvalho (carloscarregoza)

Todos os meus trabalhos estão registrados na Biblioteca Nacional-RJ.
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 25/09/2006
Código do texto: T248714
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
102 textos (5970 leituras)
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carlos Carregoza