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Crônicas da Esquina ( Cadê o Martinho )

 CADÊ O MARTINHO

Tietes são chatos e exigentes. Chegam a falar mal de seus ídolos se estes se esquivam e, em seu direito à privacidade, preferem a fortaleza do lar aos riscos de serem pegos de surpresa em alguma ruela erma e sombria de um bairro qualquer. Mas até esse direito é, para os tietes, relativo. A estes importa ver os seus ídolos e, se possível, tocá-los como se não fossem de carne e osso. Os tietes não sabem, ou fingem, que a ausência do ídolo e sua quase inacessibilidade são atitudes tomadas para que ele tenha uma vida própria, longe dos assédios dos caçadores de autógrafos. Tenho quase certeza de que isso lhe incomoda. Quem não gostaria de ir à padaria comprar pão? Que vilabelense convicto, por exemplo, não sentiria um prazer quase orgasmático de, num final de manhã de domingo, poder sentar-se no Costa e, entre uma cerveja e outra, poder bater um papo descontraído sobre assuntos que não são os seus de profissão? O tiete não deixa que os seus ídolos vistam a mesma alma que vestimos.
A tietagem é natural nos jovens. Seu imaginário ainda guarda os arroubos da infância frente ao brinquedo desejado. Mas em adultos, onde a alma já ossificada perdeu o viço da juventude, a tietagem se revela imprópria. O peso dos anos, nesse particular, deveria invernizar certas atitudes.
Aqui em Vila Isabel, alguns poucos, talvez ressentidos sem razão, são tietes convertidos ao arrependimento que fazem as mais descabidas críticas ao Martinho da Vila. Não propriamente ao talento, posto que seria uma heresia, mas a sua desaparição. Não é mais possível vê-lo no Petisco nem no Costa, esses redutos tradicionais do bairro de Noel. Lembro-me de um acontecimento revelador que se não explica, ao menos põe alguma luz sobre o sumiço do nobre compositor. Estava eu e o saudoso Jair no Costa ( onde mais? ) quando o carro do Martinho passou. Jair acenou-lhe e, sem mais nem menos, o carro estanca e o nosso sambista desce. Cumprimentamo-nos cordialmente. Nem bem fora-lhe servido um copo de cerveja e a mesa já inflacionara-se de cadeiras. Uns, desconhecidos, aproximavam-se com o indefectível guardanapo de bar para o não menos indefectível autógrafo. É sempre assim: o guardanapo oferecido e a caneta em riste como uma arma apontada ao desarmado ídolo. Breves palavras, apertos de mãos, sorrisos brancos de euforia e amarelos de constrangimento. O autógrafo, pedido assim à queima roupa, é o medo de assalto do artista que, passado o susto, parece respirar aliviado. No entanto, aqueles que voaram até a mesa como velozes urubus querem mais: desfiam-se letras de músicas, sambas inéditos são cantados nos ouvidos atordoados do nosso mestre-de-cerimônias sempre que o bairro precisa. Mas então este não agüenta, arranja uma desculpa, enfia-se no carro e zarpa. Ressentimentos e frustrações ficam em alguns rostos.
A pergunta, sempre aquela que não quer calar, permanece: quando é que o Martinho vai se deixar ficar na esquina? Pelo exposto, creio que só com máscara de bate-bola. Esperemos, pois, a chegada de Momo. Mas só se o Martinho não for para Portugal.

                                                                                        Aldo Guerra
                                                                                       Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 26/09/2006
Código do texto: T250153
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra