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A hora de Dodó


“Está na hora de Dodó passar”...  por volta das sete horas da noite ela voltava os olhos para a janela da sala por onde, sentada no sofá em frente ao aparelho de televisão - na época em preto e branco e sem controle remoto - esperava pelo irmão, já morto, que passava e lhe sorria. Minha avó materna era assim, uma personagem que encantava minha vida com seus mistérios e histórias de tirar o sono de muita criança, mas não o meu. Sentada ao seu lado também eu voltava os olhos para a janela à espera da passagem de Dodó, até que ela, com um sorriso, dizia: “pronto, ele já passou”. E sobrava prá mim a angústia por nunca conseguir vê-lo, porém, imaginava-o. Foi seu irmão mais novo que a vida levou sem despedida. Eram quatro: três mulheres e Dodó, que ficaram órfãos ainda crianças e, por conseqüência disto, separados. Cada um foi para um lugar diferente. As mulheres foram levadas pelos tios e tias, cabendo a Dodó um orfanato do qual vivia fugindo. Já casada e com minha mãe criança, ela encontrou o irmão pelas ruas quase um mendigo, já com a tuberculose, e o levou para casa, mas por pouco tempo. Ele fugiu e nunca mais se soube dele, até sua primeira aparição, anos depois, na janela da sala. As portas dos armários também eram motivo de encanto para mim. Eu abria devagar provocando um ruído nas dobradiças, queria ouvir o mesmo ruído que ela ouviu na tarde em que pressentiu a morte de uma de suas irmãs, sempre a maldita tuberculose, e me contava das velas acesas nas janelas, que viu da calçada, quando se dirigiu à rua onde sua irmã morava. Trotes de cavalos povoavam meus ouvidos quando ela me falava da casa, no bairro da Penha, onde morou com seu tio. Contava que passava as noites espiando pela fresta da janela as cavalgadas em volta da casa, que ninguém mais via nem ouvia, só ela e todos a chamavam de louca. Eu não me assustava com essas histórias, nem quando ela surgia num repente por trás da porta com um lençol branco cobrindo o corpo num “búuu” fantasmagórico, acabávamos sempre às gargalhadas. Não sei se essas histórias eram frutos de uma alma de eterna criança, mas sei que alimentaram a minha por muito tempo. Apesar da vida difícil e de muito sofrimento que teve, poucas vezes vi minha avó chorar, sequer reclamar das dificuldades, e eram tantas. O sorriso nos olhos era a sua marca, e era no seu olho cego e azulado pelo sarampo que eu via a luz que iluminava minha infância.

Cristina Nunes
Enviado por Cristina Nunes em 27/09/2006
Reeditado em 29/09/2006
Código do texto: T250363

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Sobre a autora
Cristina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
421 textos (32645 leituras)
9 áudios (1002 audições)
2 e-livros (97 leituras)
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