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QUANDO OS OLHOS NÃO MAIS SENTEM

A pequena folha seca dança ao vento. Desliza diante do olhar enfraquecido que não consegue deter a queda. Deita-se ao chão. O primeiro sinal do outono silencia nas raízes douradas de um entardecer. As fortes cores da primavera ressecam nos olhos de quem já não sente o calor dos úmidos verões.
Mais um ano se parte nos fogos das renovadas esperanças, mais uma expectativa de amor tinge de rubro o passado no olhar perdido. As palavras cortam o silêncio, ferem os dias de entrega, cicatrizam na desejada despedida... O olhar cerra as janelas dos sonhos recriados em cada entrega, deixa-se escurecer na impossibilidade de um novo amanhã...
A liberdade pode salvar a solidão do breu de uma caverna, resgatar um novo brilho no turvo horizonte...
A sensibilidade se fecha tal uma flor ao relento, deixa-se abandonar no deserto dos sonhos, na tensão de mais uma palavra, na perda absoluta do horizonte compartilhado... Talvez tenha sido apenas um sonho, um instante alegórico na vida de um casal, talvez tenha sido a realidade das estações a redesenhar as paixões e desfolhá-las no vento solto...
A mulher permanece calada, mira o homem com o olhar desbotado. Sente sofrimento e alívio. A feição tensa aprisiona muitos questionamentos. Está perdida em dúvidas, ancorada na certeza de que não é mais o olhar... Tenta fugir, mas tropeça nas promessas construídas num horizonte distante, prende-se nas armadilhas das amorosas recordações...
O casal procura costurar o sentimento com as cores das doces vivências, mas as palavras afiadas ferem as metáforas e corrompem a frágil poesia. Os sonhos desfolham dispersos... Ao vento, são apenas algumas sombras no caminho.
A mulher tenta represar as emoções e busca, em movimentos cansados, resgatar o desejo.  Pueris fantasias de retorno. Os olhos se ressentem, escapam do foco, imaginam um ideal distante do outro... Não mais sentem...
O homem se julga pressionado com a fragmentação dos sentimentos da mulher.  Gostaria de ainda sentir o brilho do olhar misterioso preenchendo-lhe de desejo, de ouvir as palavras gravando em seu corpo as emoções... Mas os olhos magoados negam a continuidade nas reticências das esparsas lágrimas.
Os gestos desfolham secos nos galhos inexpressivos. Sustentam-se os corpos, tais troncos ressequidos, tentando suportar a esterilidade do final do ciclo. O homem e a mulher não compreendem o olhar do outro, prendem-se na vã tentativa de permanecer... Não mais sentem...
Primeiros ventos contorcem as almas aprisionadas. O inverno desenha novos perfis na paisagem. Os amantes cedem à perda dos sentimentos e caminham distantes, marcados pelos desfolhados olhares, em busca de horizontes primaveris.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 16/06/2005
Código do texto: T25089
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 10:40)
Helena Sut

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