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CIDADE DE DEUS

“CIDADE DE DEUS”
Lílian Maial



É rotina, no Departamento de Perícias Médicas, onde trabalho, a saída de carro com motorista e Médico Perito, para a realização de perícia domiciliar ou hospitalar, que pode se dar em qualquer bairro do município do Rio de Janeiro.

Naquele dia, eu sairia com o Sr. Antônio, velho companheiro de “externas”, em seu “fusquinha valente”, que ele gostava de anunciar como o único que enfrentava qualquer dificuldade. Já éramos antigos conhecidos de muitas saídas a diversos lugares, tínhamos nosso “Guia Rex” e íamos a qualquer canto, que até o carteiro não achava.

O itinerário fora traçado: iríamos para a famosa “Cidade de Deus” que, pelo nome, deveria ser abençoada. E, nesse “estado de graça”, confiando na força da fé e do nosso guia, partimos para o indicado logradouro.

Chegar ao bairro foi fácil, já que é bastante conhecido. O difícil foi achar o lote tal, a quadra tal e, o pior de tudo, o número da casa. Interessante a numeração cifrada, de algum código de alta espionagem, uma vez que não havia ordem crescente ou decrescente (ou ordem alguma), nem pares de um lado e ímpares de outro, ou qualquer outra tentativa de seqüência. Não conseguimos enxergar lógica de uma casa nº28 ser seguida de uma nº131 e, logo após, uma vir uma de nº426. Devia ser coisa da CIA, provavelmente. Que estranho! Estaríamos em campo inimigo ou aliado? A resposta não tardaria.

Como as ruas (ruas?) não tivessem nome e as placas das quadras e lotes não fossem sempre visíveis, fomos nos embrenhando em território estranhamente deserto e esburacado. Era buraco a cada 10 metros de chão de terra batida (nem tão batida). O mais curioso era que, a cada esquina que alcançávamos para dentro da “Cidade de Deus”, menos vivas almas encontrávamos. E nenhum cristão para dar informação.

Observamos algumas pessoas entrando rapidamente em suas casas e fechando (as que tinham) portas e janelas. Não entendíamos o motivo de tal sutil hostilidade num bairro de nome santificado. Definitivamente a Perícia não tinha boa fama com Papai do Céu.

“Seu Antônio” começou a ficar preocupado, sem saber que há muito eu já orava. No meio daquela desolação sem números, sem placas, sem pessoas, parecendo sim uma “Cidade Fantasma”, ao longe avistamos quatro cidadãos caminhando lado a lado, feito “cowboys”, em nossa direção.

Inicialmente esbocei um sorriso de esperança, afinal, Deus não esquecera sua cidade, nem simples trabalhadores na labuta. Mas logo pudemos observar objetos reluzentes nas mãos dos indivíduos grandes e musculosos, com feições pouco amigáveis. Seriam terços? Bíblias de madrepérolas? Qual...

“Seu Antônio”, já bastante ansioso, com suor gotejando e um lenço, outrora seco, agora bastante umedecido, saiu do carro. Buzinou feito louco, e começou a gritar ensandecido, para ninguém, que nós éramos da Prefeitura do Rio de Janeiro, e que a “DOUTORA” vinha agraciar o servidor fulano com uma licença médica, para seu benefício. Perguntou para o espaço vazio se alguém podia ajudar, se alguém o conhecia e podia indicar sua moradia. Não ousou citar a palavra “perícia”, para não gerar confusão com “polícia” (sábio Seu Antônio), levando-se em consideração que nossos companheiros pouco amigáveis (já bem próximos), não pareciam simpatizantes da referida corporação.

Depois dele alucinadamente gritar e eu buzinar (cena dantesca), uma senhora piedosa, que provavelmente foi ali morar por ser temente a Deus, possivelmente beata, abriu uma frestinha de janela e gritou que o tal servidor a ser periciado havia falecido na véspera.

A essa altura, os rapazes do Apocalipse já bem próximos, e nós dois, eu e Seu Antônio, com necessidades miccionais acentuadas e, quem sabe, outras indizíveis, resolvemos pacificamente desistir da visita pericial, uma vez que o objeto da perícia não se encontrava de corpo presente, assim como nós, em poucos segundos.

Olhamos um para o outro, sem nada dizer, e o valente fusquinha provou sua coragem, chispando dali o mais rápido possível, com a ajuda de algumas promessas a certos santos protetores.
Um rápido olhar para trás, de relance, revelou sorrisos maliciosos nas bocas de nossos rapazes.

Nesse momento, a palavra “boca” ecoou em nossas mentes.... Seria aquilo uma “boca” ?

Seu Antônio, suando em bicas, não conseguia achar a saída, e o Guia Rex ali não tinha a menor importância.

Como era a “Cidade de Deus”, rezamos tanto que este, penalizado com a urgência urinária destes dois fiéis, iluminou a intuição de nosso bravo e suado motorista, e pudemos voltar sãos e salvos para o Departamento.

Ao chegarmos de volta ao órgão pericial, uma breve corrida ao banheiro mais próximo. Nos despedimos alegres com as vidas poupadas, certos de que éramos protegidos de Deus, agora convertidos. Este, decerto nos aconselhara a não retornar à cidade que levava Seu nome, principalmente em áreas circunvizinhas onde são desenvolvidas atividades comerciais envolvendo órgãos da gustação e objetos elaborados com plantas.

Aliás, como bem adverte o Ministério da Saúde, fumar pode causar sérios males à sua saúde. Imagina periciar por lá?

Que Deus nos abençoe!


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Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 30/09/2006
Código do texto: T252947

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Sobre a autora
Lílian Maial
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Lílian Maial

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