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JANELA FECHADA

O que se esconde atrás daquela janela? Sombras desfilam tímidas, movimentos leves, quase imperceptíveis... Incompreensíveis momentos. Um portal fechado para o mundo, o parapeito empoeirado e um ser idealizado, protegido, a observar e retratar o cotidiano.
Todos os dias, todas as horas... A janela cerrada se veste com o virginal branco das pesadas cortinas e desafia o interesse dos reféns da claridade. É indiferente ao trânsito intenso, às propagandas políticas, ao murmurinho da rua... Por vezes, a luz acesa denuncia a presença escondida no entardecer, a vida respira nos bruxuleios refletidos, sussurra no leve tremor do tecido. A vida segue sem estrelas...
A janela sempre fechada. A existência passa, o tempo carrega algumas vivências para um horizonte esquecido... Mas o que vive à sombra, quase morto na quietude dos dias, também compreende a vida que suporta as lembranças mofadas e se costura na certeza de que o tempo marca a superfície de vidro com a poeira enrugada.
A realidade aprisionara a metáfora da janela e só resta o bordado do significado de cárcere. Ficção de uma observadora indiscreta? Sem frestas para o amanhecer ou para a lua cheia, o tempo permanece intacto, quase emoldurado nos parapeitos, preservando os velhos guardados ou um futuro já desvendado.
Quantas verdades não estarão escondidas? Um pecado, um silêncio, uma ventura, um grito...
A janela separa a realidade e também me isola de alguma descoberta. Talvez um homem envelhecido, curvado aos doloridos anos; um jovem adoentado; a clandestinidade da vida de um casal de amantes; a viuvez escondida e protegida de novos encantos; um cativeiro; um escritor narrando as cores do próprio mundo; o vazio absoluto; uma televisão; a loucura e suas sombras; um oratório e as tantas preces... Ou quem sabe os primeiros passos de uma criança, um homem reencontrado em uma sonata de Schubert, uma mulher grávida prestes a dar à luz, um jovem em busca de conhecimento no mundo virtual...
O mundo encerrado em dobradiças permanece emoldurado nos meus inquietos pensamentos. O silêncio retratado no espelho sem reflexos reverbera nas misteriosas sombras.
Todos os dias, todas as horas... Sem desfecho, a janela fechada é apenas a alegoria de um verso reticente, a exclamação de um ser, a narrativa de um abandono...
De repente a vida parece tão desnuda aberta sob o olhar de todos. A angústia cresce e tento cerrar os olhos, mas, com as janelas abertas, as lágrimas escorrem sem destino.
O que se esconde atrás daquela janela?
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 17/06/2005
Código do texto: T25311
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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