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O INTOLERÁVEL

“A banalização da injustiça social”. O título objetivo e a fragmentação da capa com ilustrações de matérias sobre demissões, substituição da mão-de-obra pela tecnologia e ausência de planos para o futuro são as chaves para a imprescindível leitura do livro do psiquiatra e psicanalista, especialista em psicologia do trabalho, Christophe Dejours.
O conceito de banalização está presente nas percepções cotidianas. Acostumamos o olhar para a dor alheia e para as injustiças Resignamo-nos com o próprio sofrimento, certos de que sobrevivemos na realidade possível. No processo de banalização, a culpa e o medo da incompetência e da exclusão social norteiam as atitudes ou as omissões no plano profissional. Os trabalhadores tendem às características relacionadas à deficiência da capacidade de pensar: mentem para os outros e para si próprios; obedecem rigorosamente à disciplina imposta; acomodam-se; caem em estados de decepção e apatia, são dependentes das instruções; precisam das proteções conferidas pelas ordens assinadas pelo comando, e perdem o espírito crítico.
O primeiro capítulo - “Como tolerar o intolerável?” - é respondido com uma superficial leitura em qualquer jornal diário conjugada com o resgate de alguns fatos históricos. Será que o conceito de intolerável é algo tão maleável? Ou o que seria inadmissível, com o tempo, torna-se comum ao olhar amedrontado pelas manipulações políticas e sociais?
A redefinição do homem. Os índices alarmantes de desemprego, o crescimento das doenças psicossomáticas, a apatia (também como uma psicopatologia), a associação entre desemprego e incompetência, o egocentrismo, o medo propagado nas organizações... São muitos os fatores que excluem os indivíduos dos grupos representativos. Os movimentos sindicais são esvaziados pelos disciplinados ou descrentes empregados, manipulados pelas modernas políticas trabalhistas. Os trabalhadores são reféns das decisões gerenciais e do enquadramento das empresas nos cenários políticos atuais.
Líderes idealistas e paranóicos contracenam com pessoas acostumadas às injustiças, conformadas com o sofrimento e as decepções decorrentes das estruturas modernas. No teatro das representações, a maioria tenta se resguardar na conservadora ou alienada condição de espectador. Poucos assumem a coragem de transformar os roteiros e quase sempre a ousadia (criatividade) é punida com a exclusão ou a recolocação em papéis de figuração.
Dejours alerta sobre a importância da mentira para a inseminação do medo e da submissão na sociedade produtiva: “A mentira consiste em descrever a produção (fabricação ou serviço) a partir dos resultados e não a partir das atividades das quais eles são decorrentes”.
A banalização seria a tolerância à mentira. O indivíduo acuado se acomodaria à realidade da mensagem propagada e não denunciaria as injustiças presenciadas. Afinal, poderia ser pior...
Grande parte dos indivíduos assume o trabalho sem esperança de reconhecimento. O medo das iminentes listas de demissões e os fantasmas da automatização das funções, além das assustadoras estatísticas sobre o número de desempregados, retratam o perfil de um trabalhador sem esperança e planos para o futuro. O empregado trabalha entre o prazer e o sofrimento para assumir as obrigações diárias. Os projetos futuros são abortados nas instabilidades das sociedades modernas. Os excluídos permanecem à margem, fadados aos rótulos criados pela sociedade para isentá-la do ônus pelas injustiças perpetradas. O indivíduo pode superar a culpa e a vergonha, mas não consegue vencer o medo.
 “Antolhos voluntários.” O termo descreve o próprio significado. Muitos preferem vestir as proteções e viver os próprios problemas. Não ver o que ocorre nas laterais é uma forma de continuar o caminho sem perceber a extensão das estradas, não se sensibilizar com os outros é uma forma de concentrar suas forças na realização das missões necessárias. Alienação? Apatia? Falta de entusiasmo?
Não será arriscado demais perder o sentido de solidariedade?
Dejours conclui: “Somente se pode esperar reação individual e coletiva diante da injustiça infligida a outrem – à feição de solidariedade ou ação política – se o sofrimento e o sentido desse sofrimento forem acessíveis às testemunhas... Para tanto é necessário não apenas que o drama e a intriga sejam compreensíveis, mas também que ocasionem o sofrimento da testemunha, que lhe despertem compaixão”.
Não consigo me distanciar das palavras do autor. Meus pensamentos são dominados pela objetiva exposição das relações de trabalho nas sociedades contemporâneas. A banalização do sofrimento, a manipulação da palavra, a submissão dos indivíduos e a deturpação da ética alertam para a necessidade de uma radical transformação nos rumos atuais das políticas sociais para que o homem não banalize o conceito de humanidade.
A releitura das vivências e percepções é fundamental para a compreensão das possibilidades de transformações em nossas atitudes. Somos persuadidos a percorrer o caminho trilhado pelo psicanalista francês, analisar as próprias ações e omissões e tentar responder com coragem o grande questionamento: “Como tolerar o intolerável?”.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 17/06/2005
Código do texto: T25312
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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