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ARQUIPÉLAGO

Sonolenta, navego num oceano espelhado. Distraio-me entre sonhos e realidades nas nuvens de um céu de ruptura. Corto a cena de um domingo ensolarado para aterrizar em um dia útil encarcerada em reuniões e penumbras.
Uma clara manhã marca o cenário de um vôo sem turbulências. No litoral paulista, uma ilha solitária me chama atenção. Seu corpo fortalecido, em meio à amplidão inconstante, cerra em si a essência sem se deixar abandonar nas ondas... Grãos ressecados, espumas...
Ao redor, só mar...
Avisto as construções da cidade portuária. Sou seduzida pela sensual geografia do corpo maduro, recortado e umedecido. As águas penetram e alimentam o território fragmentado. O dourado percorre os rios e ofusca meus olhos... Panorâmicas de áureas realidades. A lucidez de um vôo em céu aberto.
Procedimento de descida. Sinto pertencer ao continente. Aos poucos incorporo a contínua extensão de ser e de permanecer construída nas edificações concentradas... Cintos apertados. Pouso no chão irregular da metrópole. Teimo em voar novamente, mas peso ao solo.
O cotidiano desfila em ritmo lento. Cada feição assume uma gravidade desconhecida. Cada corpo é uma ilha banhada de incertezas. O pensamento úmido deságua em gestos inconscientes. Minha percepção está aprisionada no congestionamento, nos curtos deslocamentos, nas aflições e preocupações rotineiras...
Algumas metáforas sobreviventes são esquecidas entre os discursos de traições e de desencantos. A conspiração cria armadilhas invisíveis. Expio culpas, amedronto-me com os olhares iluminados pelas lâmpadas frias, pelas pregações costuradas em frases feitas.
A linguagem onírica se perde na narração da responsabilidade pela desconstrução das conjunturas e pelas perspectivas dos movimentos do mundo. São tantos os sonhos! São tantas as ilhas!
Busco abrigo num periódico. Viajo nas notícias mundiais: novos atentados no Iraque; crise institucional; economia blindada, renúncia de poderosos; a auto-estima do brasileiro desce os degraus do desemprego e da impotência; corrupção...
Lembro da ilha solitária no oceano, de um grão de areia, de um brilho refletido... A possibilidade de ser e de permanecer distante do continente costurado pelas teias de humanidade...
Sou seduzida pela amplidão do oceano, mas as traiçoeiras ondas sempre me levam à terra firme... Já não sou a ilha solitária, sou parte de um arquipélago banhado por inquietações. Movimentos sociais. A percepção do outro como extensão da minha sensibilidade, a compreensão do outro como possibilidade de transformação...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 17/06/2005
Código do texto: T25338
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
614 textos (790006 leituras)
2 áudios (1258 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 08:42)
Helena Sut

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