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Eflúvios

Eflúvio. Quase rima com nuvem. Suscita, leveza, satisfação e até prazer. Eflúvio. No entendimento do poeta, o termo, visceral, tangencia o amor, a dor, a tristeza e o que mais o artista sentir ou imaginar. O poeta é livre e o libera e interpreta no lugar e da maneira que bem quiser. O romântico pode mesmo dedicá-lo à mulher amada. Um eflúvio de amor... E não seria estranho se algum futuro papai, ao descobrir que o rebento que está por vir será um rapazinho, encantado com a sonoridade da palavra, dissesse orgulhoso: "vai se chamar Eflúvio".

Casais, à noite na cama, em mútua cumplicidade, compartilham eflúvios, às vezes por anos a fio. Outras vezes eles provocam desavença e até o rompimento do matrimônio. Não no início do casamento, mas no decorrer dos anos, quando já não mais se usam as mesmas máscaras de início de romance e a tolerância vai se acabando. Assim, a observação dos eflúvios do casal pode ser um termômetro para se medir o desgaste da relação, para se descobrir se o amor está corroído.

O advogado defende com unhas e dentes o seu direito de eflúvio. O juiz julga a sua propriedade. O músico tira de ouvido o tom de seus eflúvios. Um grupo de três ou mais músicos pode mesmo afiná-los e montar acordes. Sinfonia de Eflúvios. Já o jornalista, oportunista como ele só, reporta os alheios, procurando desviar a atenção dos seus próprios.

O certo é que não há cristão, budista, ateu ou batuqueiro que não se beneficie deste alívio. Mesmo os envergonhados, que em público procuram conter os seus eflúvios, ainda estes não vivem sem, constantemente, se permitirem tal prazer. Escondidos, solitários, presos aos grilhões do tabu, algo assim como a própria masturbação. Mas há também os sacanas, que, ao contrário dos envergonhados, usam do dito para incomodar os outros, amigos ou anônimos, observando, dissimulados e satisfeitos, nas expressões dos rostos dos passageiros de um ônibus cheio ou de um elevador, os efeitos do seu discreto mas sádico eflúvio.

Dica: os eflúvios podem ser uma arma. Quando houver uma pessoa muito chata te incomodando, destas que ficam contando casos e mais casos que não acabam nunca, eflúvios silenciosos são uma saída.O indesejado pode resistir ao primeiro, ao segundo, mas não a um terceiro eflúvio, quando deverá buscar outra pessoa para incomodar. Em casos extremos, quando o terceiro eflúvio silencioso não surtir efeito, então um sonoro e percussivo não falha. Em semi-fusa, prrrrrrrrrrrrrrr, ou emulando metais, como um trompete, fuuuuuuiiiiiin. O inconveniente desta poderosa arma é que o chato irá chatear outro, mas, inevitavelmente, o primeiro dos próximos assuntos em pauta passará a ser você. Vale o preço. Experiência própria.

Concluindo: eflúvio... A esta altura, você já sabe o que é. Talvez já até tenha, neste ínterim, produzido algum. Se não, vai produzí-lo. Não se acanhe. Impossível contê-lo por muito tempo. É natural. Irrompe do âmago, das entranhas, do ponto mais profundo do ser para tomar de assalto o ambiente. A palavra é de uma textura gostosa que, como já dito, suscita alívio, satisfação, prazer... Eflúvio. Crianças morrem de rir com o que, nos adultos, pode provocar brigas, discussões, constrangimentos... Enfim, cada um encara os eflúvios, próprios ou alheios, de maneira diferente. Depende da cultura, da religião, da família, da classe social, da ocasião, do interesse, da profissão... Freud explica. A antropologia explica. A fisiologia explica. Pois uma coisa é certa: todo mundo peida.
Raul Rodrigues
Enviado por Raul Rodrigues em 02/10/2006
Código do texto: T254411
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Sobre o autor
Raul Rodrigues
Lauro de Freitas - Bahia - Brasil, 45 anos
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