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MARCAS DA FALTA E DA SAUDADE


Quantas vezes ouvi dizer que alguém sentiu falta de alguém, tentando expressar o sentimento de ausência que a saudade provoca.

Falta sentimos das coisas palpáveis, materiais,
substituíveis, até mesmo descartáveis, é resultado de produtos consumíveis.

Saudade é diferente, saudade tem atributo pessoal e intransferível.

Falta pode-se descrever, é de caráter quantitativo, saudade é dor indescritível, muitas vezes silenciada, engolida, disfarçada, tem característica absolutamente
qualitativa e muitas vezes só se dá conta dela, quando já é irreversível.

Falta passa pela percepção de algo que esteve conosco e já não mais está, ou que foi nosso e deixou de ser. Saudade se instala, tantas vezes nem a percebemos chegar ou nos distraímos, pela falta de possibilidade de encarar,
de frente, aquela dor, imensa dor, refletindo como a um espelho nossa fragilidade desnuda.

Falta é contornável, saudade não tem volta, mesmo que um tempo depois possa se acabar com ela, ainda.

Falta se resolve, saudade não tem jeito, quem ama, inevitavelmente há de passar por ela.

Mas tem saudade que é boa, aquela que traz esperanças na bagagem e é fruto de possibilidades retomáveis.

Dolorosas mesmo são as saudades impossíveis, aquelas que de uma estranha e quase inexplicável forma, viram presença nas noites e nos dias, no sol e na chuva, passam a ser companheiras de solidões, ganham vida e confortam as ausências do coração.

Saudade é pessoal, quando manifesta por lembranças de tempos derradeiros ou longínquos, por cheiros de infâncias, por canções, ou por qualquer outra coisa que sinalize a necessidade, ficamos como plantinhas arrancadas às raízes, à mercê dos ventos, que a própria natureza se encarrega de replantar ou reciclar, para adubar outros solos.

Por excelência, analisando a própria condição do existir que começa num ponto para em outro ponto findar, a saudade deve ter sido o sentimento pioneiro criado na humanidade.

Conhecemos pessoas que se dizem nunca terem amado, outras nunca se apaixonaram, e ainda, aquelas, que, felizmente, nunca odiaram. Mas quem, em toda a história viveu sem sentir saudades? Saudade é pré requisito do viver e do
morrer, resultado do amar, condição do existir.

Quem sente falta, na maioria das vezes não se suporta e precisa depositar no outro sua auto intolerância.

Quem sente saudades, conheceu de perto os valores essenciais da vida, tem memórias saudáveis para cultivar por todo o existir, tem coragem.

É verdade, muitos deixam de sentir saudades por falta de coragem na entrega, de tudo o que tem de mais genuíno.

Quem sente falta, precisa de garantias para demarcar seu lugar no universo. A saudade tem espaço cativo nos corações que amaram fiel e intensamente.

Quem tem saudades entende de poemas, de serenatas, de romantismo, de sensibilidade, de banho de chuva, de fogueira, de lareira, de por de sol, de lua, de céu estrelado, de comidinhas caseiras e especiais, de coisas pequenininhas que se guardam grandemente pela vida afora.

Quem tem falta, tem medo e tem posse.

Quem tem saudades conhece bem de pertinho o sabor da liberdade, por mais que sempre retorne às suas caixinhas de lembranças.

Quem tem falta até pensa, mas não sabe armazenar com sabedoria suas boas recordações.

Quem tem saudades jamais precisou pensar, porque tão intensamente teve, tão verdadeiramente foi, tão inteiramente se deu,tão efetivamente soube, que como
recompensa, alimentada está a sua alma, seu espírito, seu ser, por toda a eternidade.


(do livro Marcas - Todos os direitos reservados à autora)



Márcia Beatriz Prema
Enviado por Márcia Beatriz Prema em 02/10/2006
Reeditado em 02/10/2006
Código do texto: T254736

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Sobre a autora
Márcia Beatriz Prema
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Márcia Beatriz Prema