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DEU BODE

Na reta final das eleições 2006, os candidatos apelam pra tudo em busca de votos. É interessante a quantidade de videntes, pais e mães-de-santo que aportaram em Boa Vista nos últimos dias. Muitos acreditam nos tranca-ruas e abre-caminhos e se valem de suas mandingas para obter sucesso no pleito. No Cemitério Nossa Senhora do Bom Parto, aconteceu o inusitado:
O cortejo chegou à cova aberta. A mulher e os filhos choravam, os amigos sofriam em silêncio, dona Aretuza, a mãe, dopada, andava sem rumo de um lado pra outro lamentando a perda do filho. Eudócia, a amante, lá longe, tentava segurar as lágrimas que teimavam em brotar de seus olhos.
Logo, abriram o caixão para as últimas despedidas e orações encomendando a alma de Raimundo-batatinha.
O silêncio tomava conta do cemitério e, naquele final de tarde, entregavam o defunto à sua terra prometida. Terreno minúsculo: 1 metro de largura, por 2 metros de comprimento, por sete palmos de profundidade.
Militante do MST, Raimundo-batatinha finalmente estava plantado em um lugar próprio. Lugar seu. Seu para sempre. O defunto ganhou aquelas terras sem que ninguém reclamasse a sua propriedade; nenhuma foice ou facão foi levantado. Será que alguém tentaria invadir o terreno que lhe foi dado de boca aberta?
As primeiras pás de barro foram jogadas sobre o caixão, quando um ruído surdo e ininteligível brotou do fundo da terra. Os presentes entreolharam-se. O coveiro parou seus  movimentos quase automáticos. Dona Aretuza correu e gritou para o profissional enterrador:
- Pode parar, seu Anacleto: o Batatinha tá vivo!
O coveiro e seu ajudante começaram a remover o barro de cima do ataúde, quando um grunhido mais forte e desesperado ecoou. A terra da sepultura número 109, ao lado, mexeu-se. Grande parte dos que vieram se despedir de Raimundo-batatinha abriu em desabalada carreira: os meninos deixavam as sandálias que lhes caíam dos pés; nem olhavam pra trás; as beatas largavam seus rosários pelo meio do caminho; o coroinha jogou de lado o turíbulo e o potinho de água benta...
Dona Aretuza, corajosa, com ajuda da amante e da esposa de Batatinha, cavou com as mãos a terra fofa que se movimentava em espasmos. Logo seu tato encontrou um couro peludo negro que subia e descia em movimentos rápidos de respiração ofegante.
- Ajude aqui. Essa coisa tá viva! – Gritou a viúva para o coveiro que abandonou a pá e seguiu os passos dos outros medrosos.
- Isso é coisa do Demo – Sentenciou o ajudante do coveiro que se afastou em inúmeros e rápidos sinais da cruz.
Ao cabo de alguns minutos, as três mulheres desenterraram o corpo de um bode velho, quase sem vida. Amarrados no pescoço do caprino moribundo, encontraram, além de outras coisas, um patuá contendo uma fita de Nosso-senhor-de-bonfim embebida em patchuli, um “botton” do Partido dos Trabalhadores (PT), uma imagem de Santo Expedito, uma oração a Nossa Senhora Desatadora de Nós, um santinho com Santa Rita de Cássia - concorrente de Santo Expedito -, uma fita encarnada, um trapo negro, um tucano empalhado, uma foto com Mário Covas, Ulisses Guimarães e Tancredo Neves, um sapo gordo com barba postiça e uma garrafa de marafo. No rótulo desta garrafa, escrito à lápis, em letras tipo garranchos, os dizeres: “Forças do bem e forças do mal: apoio total. Bode-cheiroso: deputado-estadual”.

e-mail: zepinheiro1@ibest.com.br
Aroldo Pinheiro
Enviado por Aroldo Pinheiro em 03/10/2006
Código do texto: T254974
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Sobre o autor
Aroldo Pinheiro
Boa Vista - Roraima - Brasil, 62 anos
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Aroldo Pinheiro