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Manifesto pela infância

19 de março de 2003.
Hoje, sairei do trabalho, caminharei pelas ruas, acompanharei com o olhar as notícias penduradas pelos jornaleiros, serei recebida em casa com um beijo carinhoso de minha filha, escutarei suas descobertas infantis com a atenção própria dos adultos - fragmentada entre tantas ocupações - enquanto ela se recria no mundo em novas expectativas .
Liberta do cansaço, ensaiarei algumas fantasias, esboçarei o sorriso do que ainda desejo, lutarei contra o sono até dormir... talvez sonhe e acorde preocupada com o horário, talvez acorde simplesmente sem inquietações. Trabalhar, caminhar nas ruas, atravessar os acontecimentos do mundo com o olhar nas notícias, receber o afeto de minha filha... Tudo como de costume!
Hoje, provavelmente, será o meu amanhã. A rotina do dia-a-dia, que ora me angustia, ora me engrandece, traz-me a certeza da continuidade do curso de minhas vivências.
Minha filha crescerá nos beijos carinhosos, suas histórias amadurecerão até os grandes projetos e realizações, enquanto envelheço, amadurecida e satisfeita com a concretização das possibilidades. Caminharei pelas ruas e serei acolhida em meu lar. Cada movimento é a continuidade do meu existir, cada caminhar é o encontro de um rumo.
Mas hoje, cotidianos serão implodidos em algum canto, retalharão os costumes e muitas vidas deixarão de correr os caminhos corriqueiros para se esconderem, muitas crianças estarão abrigadas no medo, aterrorizadas demais para relatarem suas descobertas. As crianças, quietas, são surpreendidas por um mundo enlouquecido, em surtos que apagam a memória e deixam no inconsciente a certeza de que hoje é a negação do amanhã.
Matarão a infância antes que ela amadureça!
Alguns deixarão de caminhar, de dormir preocupado com o dia seguinte, pois, tudo é incerto... Explodirão impossibilidades, cessarão os beijos carinhosos, as narrações mirabolantes... Os esconderijos enterram as vivências infantis, asfixiam o olhar, deformam a linguagem... São tantas crianças que morrerão em corpos infantis, são tantos os pais que se perderão para sempre... A fantasia, a esperança e o sonho são alvos certos das armas inteligentes.
O abandono de um brinquedo quebrado representa a realidade.
A insanidade rompe o caminho da humanidade, pondo em risco a continuidade. O que restará dos olhares embrutecidos? Dos sonhos interrompidos com tanta barbárie? Haverá diagnóstico para tanta loucura? Haverá cura para tantos males?
Rotinas serão definitivamente mutiladas e pessoas, que como eu, caminham no mundo, estarão expostas às convulsões da loucura dos homens. Algumas filhas não irão ter em quem dar seus beijos, outras não mais poderão...
Hoje, certamente, perderá o amanhã, se não existirem crianças, se não existirem rotinas e fantasias...
Minha filha crescerá nos beijos carinhosos, suas historias amadurecerão, contudo estarão definitivamente marcadas nas cicatrizes dos que, covardemente, foram privados de existir... Eu, continuarei caminhando, atravessarei o mundo com o olhar nas notícias penduradas, tentando não tropeçar em minha enorme impotência.
Hoje tudo parece tão distante. Atravesso o limiar da minha intimidade, agarro-me à certeza de que hoje representa o amanhã. Minha rotina segue seu rumo a salvo... Mas para onde? Até quando?
Hoje. 19 de março de 2003...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 18/06/2005
Código do texto: T25685
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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