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Uma página em branco (uma pequena viagem)

Hoje não era um dia de escrita, hoje era um dia de reflexão depois de uma noite onde espalhei poesia ao acaso, mas depois de ler um belo poema duma pessoa amiga e de ter tido uma conversa, os neurónios literários puseram-se alerta e deram origem a esta espécie de crónica que hoje vos trago e que não podia deixar de preencher este espaço em branco.
Peço desculpa pelo tom reflexivo, mas hoje deu-me para isto…
Desde pequeno que viajo, mas só desde a adolescência que o faço fisicamente, isto não contando com as viagens de férias com os pais para o Algarve e mais tarde para as praias da região centro.
Desde pequeno que viajo por mundos que pensava serem comuns a quem pensa ou imagina, mas que descobri demasiado tarde serem o reduto de sonhadores ou daquelas pessoas que, como eu, além de sonhadoras gostam de exercitar a mente por paisagens estranhas que nunca virão “In loco” nem nunca verão, satisfazendo-se apenas por as imaginarem e por conseguirem que quem as leia as viva nelas.
Há uma frase que descobri este Verão em França e que transmite um pouco do que disse acima:
 “Quem escreve constrói um castelo.
E quem lê passa a habitá-lo”
E eu sinto-me tão bem ao saber que vós, os meus leitores e leitoras habitam no meu castelo, que faço todos os dias com enorme carinho, com pouco jeito, reconheço, mas com um enorme e infinito carinho, por vós que me dão o enorme prazer de ler e habitar no meu castelo.
Mas hoje apeteceu-me contar uma das primeiras viagens que fiz efectivamente (embora as de facto também possam ser as mentais porque eu de facto viajo nelas…)
Desde os meus 15 aninhos (e isto nos finais dos saudosos anos 80) que comecei a fazer campos de férias. De inicio desconfiei deles, pois eu nunca fui muito dado a coisas grupais, sempre fui uma espécie de bicho do mato até ao mundo adulto, onde me abri um pouco mais para o mundo e me transformei no ser um pouco mais social que ainda sou…Mas não perdendo a conta ao rosário desta narrativa, dizia eu que comecei a fazer campos de férias e simplesmente comecei a adorá-los porque, com poucas excepções, os organizadores e os participantes me fizeram ser aceite, aceitaram as minhas ideias e pontos de vistas tão pouco ortodoxos, mas de certa forma me ensinaram que tinha um lugar no mundo, e isso nunca esquecerei, pois foi a minha primeira experiência de socialização “mais a sério”
Ora a organização que direccionava esses campos de férias e que na altura era a maior de Portugal, fazia, em 1990 vinte anos. E os preparativos foram de estadão, algures na Serra da Estrela, com o convite a todos os participantes e ex-participantes para virem a essa enorme festa. Meses antes lançaram uma carta a pedir voluntários para a organização, mas como eu estava no eterno mundo da lua, só mais tarde decidi ir…Tarde demais, a lista estava fechada…mas eu que até posso ser ausente, mas sempre fui teimoso e determinado para o que me interessava, liguei ao director (um homem notável de enorme envergadura humana e moral e que nos deixou tristemente no verão de 2001) a pedir para aceitar a minha inscrição tardia…Obviamente foi recusada, pois eu até podia vir à festa, mas ajudar a organizá-la estava fora de questão…Argumento que não me convenceu, pois eu convenci os meus pais que até já tinha ido ao local e que o conhecia muito bem e que iria aparecer de repente e sem avisar, sendo a minha presença um facto consumado…Pequeno pormenor de grande importância: eu de facto tinha lá ido fazer um campo de férias dois Invernos antes, mas tinha ido de camioneta com todos os participantes da minha cidade até lá, sem paragens...Ou seja, agora a solo iria de autocarro normal até uma ponte que ficava no sopé do monte onde era a festa…Depois…bem depois teria de ir à boleia uns bons quilómetros…
O mais engraçado é que além de nunca ter ido à boleia para lado nenhum a minha timidez impedia-me de ter lata suficiente para solicitar a tal boleia…
Que se lixe!
Eu o que queria era mesmo ir, e por isso fiz a mochila com a previsão de comida para uma semana caso me perdesse, além de levar uma tenda…em suma, mais de 40kilos às costas num tipinho que na altura não tinha mais de 1,60m e era magro como um palito…
Ainda hoje não sei como consegui convencer os meus pais, mas o que é certo é que parti alegremente até à serra que ficava a uns enormes 90km de casa.
Naquela época não havia telemóveis e os telefones públicos eram escassos, o que quer dizer que em casa não teriam noticias minhas durante mais de quinze dias, facto inédito e inusitado na minha vida da altura.
Mas até chegar à tal ponte a coisa correu bem, pois eu ia muito quietinho no meu local a observar a bela paisagem serrana, comida pelos típicos incêndios de verão que consumiam a única riqueza natural do meu adorado país, a deslumbrante floresta que cobre parte importante desta terra cheia de quase nada.
E foi assim que um puto a caminho do mundo adulto saiu, de lenço muçulmano ao pescoço (na altura viviam-se os tempos de pré-guerra no golfo, e eu numa de rebelde usava um lenço muçulmano que me trouxeram de Marrocos, acto que hoje, nestes tempos de paranóia em relação ao Islão seria encarado com muito pouca piada, como em tempos recentes tive a oportunidade de experimentar na pele…), chapéu de palha na cabeça e uma mochila do tamanho do corpo, da camioneta perto da tal ponte, esperando que os deuses da fortuna lhe dessem a sorte da tal boleia. Os deuses deviam estar de facto comigo, pois enquanto eu estava encostado à mochila tentando gizar uma forma de percorrer a distancia que me separava, parou perto de mim um carro com duas lindas adolescentes da minha idade e respectiva mãe que me perguntavam se estava perdido, rindo-se inocentemente com o meu lindo aspecto…Eu disse-lhes para onde queria ir, mas elas lamentaram pois só me poderiam levar até meio do caminho, sendo que teria de ir a pé o resto do percurso…Pois, havia um pormenor técnico que me esqueci de referir: o resto do percurso era por uma estrada sem nada de humano, a não ser a própria estrada, a noite começava a cair e havia lobos nas redondezas…Como da natureza não percebia nada e temia os lobos, preferi a segurança de uma boleia mais permanente até ao local da festa…Elas despediram-se com pena e novos e imensos sorrisos e uma vontade não confessada de convencer a progenitora a levar-me ao meu destino, mas em vão.
E a sorte estava de facto do meu lado, pois logo de seguida apareceu uma  camioneta de transporte de troncos de madeira e um solicito condutor que se apercebera do meu ar perdido e que se oferecera para me dar boleia.
E foi assim, que radiante cheguei ao local da Festa, perante o ar estupefacto daqueles que lá estavam perante o facto de não ter avisado e da comida estar contada para a festa, havendo muito pouca disponível, além de alojamento. Nada que me atrapalhasse, pois feliz da vida exibi a minha pesada despensa e a minha também pesada tenda! Durante alguns minutos ninguém soube bem o que me dizer, sendo que a ideia inicial era pôr-me dali para fora, algo de impossível, primeiro porque a noite já caíra, a seguir porque tal iria contra o espírito a nortear aquela organização…Em suma, fiquei por lá perante alguns olhares insatisfeitos, que aumentaram quando repararam nos dias seguintes pela minha total aptidão em ajudar, acalentada pelo físico resistente mas pouco dado a grandes esforços, pese embora a minha total disponibilidade…
Enfim, foram uns belos dias de férias que tiveram o seu auge na grande e monumental festa, na qual eu naturalmente tinha de dar nas vistas, nessa coisa contraditória entre uma timidez endémica e uma louca vontade de chamar a atenção…Oportunidade que andava a espreitar e que me foi servida numa bandeja quando me contaram que viria de limusina um representante do Governo…Eu ainda pensei duas vezes na luta entre o juizinho e o disparate total, mas esta luta estava à priori perdida nessa adolescência algo tardia, pelo que tive de imediato a ideia de me disfarçar de árabe e de me por a dançar em frente do governante…Foram apenas alguns instantes, mas ainda hoje me recordo da cara do dito e dos lideres da organização que o acompanhavam na apresentação da festa…Devem-se certamente ter desculpado pela minha forma de estar, como dizem os meus amigos actuais quando tenho um destes acessos “É…o Zé Miguel…” e toda a gente fica a perceber o meu feitio peculiar, algo mais regrado, mas nunca totalmente amenizado, por uma indómita vontade de viver e de exteriorizar o que sinto, que por vezes me leva a ter certos e incompreensíveis comportamentos…Felizmente que hoje a escrita canaliza parte do que vou sentindo, sendo a exteriorização física cada vez menos presente…
E aquele verão acabou tão depressa como começou, numa viagem de regresso de camioneta, onde eu e a bela Gu cantámos até à exaustão um tema bem conhecido dos portugueses e um hit nesse verão, a inesquecível canção “A paixão segundo Nicolau da Viola” do Rui Veloso, musica querida, mas naquela tarde bem menos apreciada, talvez por a termos cantado até ao limite do razoável, ou pela qualidade dos cantores…
Foi um dos melhores verões da minha vida, mas tudo se perdeu, pois dai a poucos anos eu acabei por sair da organização incompatibilizado com as linhas mestras que esta seguira, e os amigos e amigas criados…Perderam-se no tempo como areia fina entre os dedos, tendo arranjado outras e outros, porventura melhores, ou simplesmente diferentes…
O mais engraçado é que apesar de ter vivido várias vidas desde aquele verão, por estranho que pareça nunca esqueci o rosto e a voz daquelas duas lindas adolescentes, que do meio de um quase nada me poderiam levar até bem perto do meu destino…
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 05/10/2006
Reeditado em 06/10/2006
Código do texto: T257217

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Miguel Patrício Gomes
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