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Espelho, espelho meu, afinal, quem realmente sou eu?

        Espelho, espelho meu, hoje me disseram que eu sou o futuro do Brasil! Que sou criança, inocente, que eu tenho que ser bem tratada, bem cuidada, bem educada, que eu tenho que estudar, brincar, ter uma vida digna, pois sou eu quem vai ditar as regras do país daqui a alguns anos. Eu fiquei tão feliz quando ouvi isso, mas será que é verdade? Será que realmente essa sou eu? Tenho ouvido tantas versões a meu respeito, que já nem sei mais o que ou quem eu sou!
       Ontem mesmo alguém falou que eu era uma mendiga sujismunda, que eu era uma vergonha para o cartão postal da cidade, que eu estava enfeando aquela avenida tão linda, cheia de canteiros floridos com minha aparência suja e minhas roupas rasgadas! Eu estava no sinal, pedindo esmolas, mas eu precisava comer, não é mesmo? Quem é que não precisa? Eu preciso e nem sempre tenho, por isso peço!
       Semana passada, eu fui obrigada a vender meu corpo em troca de algum dinheiro, pois estava com tanta fome, que não pude agüentar. E o homem me chamava de prostituta imunda, vadia, coisas assim, coisas feias, que tenho até vergonha de repetir! Mas fazer o que né, eu juro que não tive escolha, não tinha ganhado nada lá no sinal, meu estômago doía tanto, eu precisava realmente comer algo!
       Há uns dois meses eu resolvi pegar um pão da padaria. Peguei, saí correndo, mas não teve jeito, ele me alcançou, tomou o pão da minha mão, jogou no lixo e gritou comigo: - sua ladra desgraçada vá roubar na casa da P.Q.P.! Só não vou chamar a polícia, porque estou muito ocupado pra isso! Some daqui, não quero te ver nunca mais! Ladra? Outra identidade das muitas que já me atribuíram!
       Logo que eu fui morar nas ruas, quando minha mãe sumiu e o “dono” lá do morro me expulsou da minha casa, fui intitulada de órfã, moradora de rua, até de pivetinha eles “carinhosamente” me apelidaram. Pelo meu nome mesmo ninguém me conhece, aliás, como é mesmo meu nome? Minha mãe me chamava de “Preta”, por eu ser a mais morena dos irmãos. Desde que me entendo por gente (gente?) eu sou (era) chamada assim, não me lembro se já tive um nome, muito menos um sobrenome. Acho tão chique, queria me chamar Angelina Jolie Meneghel Santos! Aí sim, eu saberia quem realmente era (ou seria?).
       Tão difícil saber! Futuro do Brasil, criança, inocente, mendiga, prostituta, ladra, órfã, moradora de rua, pivetinha, Preta? As perguntas são tantas, porém as respostas não chegam. E aí, espelho, espelho meu! Diga-me, por favor! Quem realmente sou eu?
Mi Guerra
Enviado por Mi Guerra em 24/10/2010
Reeditado em 14/12/2011
Código do texto: T2575728
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Sobre a autora
Mi Guerra
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 37 anos
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1 e-livros (67 leituras)
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Mi Guerra