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ALGUÉM TEM UM PALPITE???

          Eu estou começando a achar que estou espiritualizada demais e daqui a pouco viro freira. Explico-me: ao contrário de todos os nervosinhos, que tem estopim curto, eu nem estopim tenho. Já acordei com o vizinho martelando alguma coisa nervosamente no andar de cima às oito da madrugada de um sábado cinzento, o que já seria motivo suficiente (em tempos normais) pra pegar o rodinho e, ou cutucar o teto ou ir bater à porta do cara, de pijama e tudo e dar com o rodo na cabeça do "abençoado". Mas não. Fiquei quietinha, enrolada nas cobertas e conversando com o Senhor (é, aquele do Último Andar) pedindo fervorosamente Sua Providencial e Divina intervenção. Pasmem: fui atendida imediatamente. O sujeito deixou o martelo e foi sossegar o rabinho. 

               Aí vêm aqueles programas maravilhosos que a gente fica “ansiosa” por fazer num sábado chuvoso: entrar numa loja de brinquedos atolada de molequinhos e pais desesperados a alguns dias do Dia das Crianças, já que afinal, o meu também precisa do seu presentinho. E, é claro, depois de o filho da gente olhar cento e vinte e nove coisas diferentes e querendo, obviamente, levar todos, ainda passa-se por um corredor polonês de pés incautos de crianças enfurecidas deixando suas unhazinhas recém-pintadas em estado de miséria pra chegar a sua vez de pagar o “estrago” e o diabo da máquina do cartão está mais travada do que você em dia de TPM. Esperar, já que você não tem uma folha de cheque pra agilizar a coisa. Nessas alturas, a única coisa que minha mente foi capaz de pronunciar foi: “Senhor, será que eu mereço??? Não dá pra acelerar, Cacilda??”. Bingo: ELE entrou em ação de novo. A máquina destravou e eu saio lépida e fagueira, pensando que minhas desventuras haviam chegado ao fim. Doce ilusão... 

               Primeira esquina, vou dobrando, depois de sinalizar como convém e um desses “gatinhos lindinhos, saradinhos, com o carrinho da hora que obviamente é do papai” corta minha frente na maior sem cerimônia, debaixo de uma chuva dos diabos (perdão, Senhor, mas só pode ser o outro mesmo) em que não se vê um dedo diante do nariz, chão escorregando feito sabão em que freio funcionar bem é uma benção (e, mais uma vez, fui abençoada) e eu, inexplicavelmente, ao invés de usar aqueles únicos quatro músculos necessários para levantar um certo dedinho pra mandá-lo a lugares inomináveis e adjetivar convenientemente a Santa que botou aquela criatura no mundo, só fiz aquele ar de paciência de mãe atormentada e disse, embora ele não fosse ouvir: “Vai em paz, meu filho. Que Deus te acompanhe. Pra bem longe de mim”. 

               Estou agora aqui, na santa paz dos justos, depois de dormir horas a fio durante o dia - coisa que não faço nunca – e só tendo acordado por causa do cheiro da comida pensando: Convento das Carmelitas, Pastora de Igreja Evangélica ou Mosteiro Budista? 

               Alguém aí tem um palpite?

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 07/10/2006
Reeditado em 07/10/2006
Código do texto: T258937

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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