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Névoa do passado

Deslumbro o espaço em branco onde escrevo com a mesma surpresa com que preenchi o que ficou para trás! Esqueço o irreal. Esqueço o sonho. Esqueço o desejo. Esqueço tudo!

Queria escrever, mas a mão presa não acompanha o meu pensamento. Vai traindo desesperadamente o sussurrar de cada palavra sem que sequer dê conta disso.
E escrevo! Tudo sem sentido...

Procuro nas gotas de chuva perdidas um rumo da memória que me guie a mão, que ajude os turbilhões de pensamentos que ecoam por entre as minhas veias a escaparem por entre os dedos semi abertos. Como se tivesse apanhado um punhado de areia, e apenas os mais pequenos grãos conseguissem escapar por entre as letras.
E mais uma vez imploro às letras que sussurrem em palavras a este espaço branco tudo o que gostaria de escrever...
Mas não!
O ruído dos pássaros é mais forte e apaga as vozes que escaparam! As confissões entre dentes, as gotas de água a cair e o vento...
A luz pálida e enevoada do sol assalta-me as imagens que incessantemente correm à frente dos meus olhos quase não deixando vê-las! As cores verdes, as estradas vazias e os olhares perdidos...
O nevoeiro abafado e húmido fez-me perder tudo! O cheiro da terra molhada, o aroma dos pinheiros e de ti...
A confusão de estímulos fez-me esquecer de voltar a sentir tudo! Um toque suave de uma pétala, o prazer de um colchão macio e o pico de uma rosa...

Só o paladar doce se mantém! O paladar temperado por dias nunca esquecidos, o paladar apurado pelos sentidos! Esse paladar quente e húmido que não quero perder, esse paladar que protejo de tudo! Da realidade, do regresso... E do esquecimento! Esse paladar que guardo! O paladar das palavras que ficam por confessar e que trinco incansavelmente entre dentes sem nunca, nunca deixar escapar!

E finalmente desisto... Fecho a mão, guardo os grãos de letras caídos como pequenos borrões de tinta, cerro os olhos e vejo agora! Essa mancha negra, só aí está tudo escrito! Aí se escondem todas as letras e todas as palavras dessa história! Só aí elas se misturam no passado do que vivi!
Só nesse escuro encontro tudo...
Encontro o sonho...
Encontro-te a ti!
Sónia Granja
Enviado por Sónia Granja em 08/10/2006
Código do texto: T259333
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Sobre a autora
Sónia Granja
Portugal
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Sónia Granja