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Drogados

Aqui estou, mais um dia. Acordo, me levanto, e desligo o rádio-relógio, pois novamente despertei antes dele...

Vou até o banheiro, me desfaço do que não é mais necessário, retiro a roupa, e tomo um banho morno-frio. Troco de roupa, e vou para o trabalho.

No meio do caminho, estou calmo, tranqüilo, ponderado. Deixo minha mente livre, funcional, pensativa. Perco-me por dentro de tantas perguntas e respostas, e pensamentos conflitantes, e diferentes. Mas, rapidamente, já percebo o perigo: estou completamente são. Não estou lesado, noiado, chapado, ou qualquer outro estado.

Todos me olham. Parecem que reconhecem que estou diferente, que esta faltando algo, que não sou eu mesmo.

Tudo bem, há tempo de corrigir. Ótimo. Vejo uma pessoa vindo em minha direção. Um negro. Excelente.

Rapidamente, quase que instantaneamente em minha mente, enrolo um baseado de racismo, pito violentamente rápido. Pronto. Agora, olho com todo o meu racismo para aquele maldito negro, ele olha de volta, e vejo também o racismo nos olhos dele. Também há racismo, mas contra os brancos, ou mestiços, ou índios, ou seja lá o que for.

Pronto, ele passa, e vejo que já estou mais enquadrado nesse mundo, já não estou mais tão são, e não sou mais louco para eles.

No trabalho, também há algo de ruim. Raiva, stresse, cansaço, desânimo. Já tenho um remédio excelente: um bom tiro de pó! Ignorância em pó!

Na minha mente, preparo as carreiras. Três, para poder viajar melhor. Puxo rapidamente, respiro, pronto. Agora, basta ser ignorante como eles. Que cada um cuide da sua vida de forma que não atrapalhe a minha. Pronto.

Acaba o trabalho, hora de ir para a faculdade. Estudar. Na verdade, apenas mais uma das drogas que eles tentam nos entorpecer. Alienam a mente para que possamos pensar como e tal qual seus educadores.

Mas fazer o que? Estou preso nesse mundo, tenho q ficar junto com eles, não importa o que aconteça a mim. Tenho de me encaixar, de ser igual.

Está na hora. Na minha mente, pego uma seringa. Passo para o professor, que a enche com mais uma droga. Agora, ele a aproxima de meu braço, prestes a receber a picada. A picada da droga faz com que eu me desmotive para tudo no mundo. Por que me interessar cm política, se não é algo que me atrapalhe? Todos os políticos vão roubar mesmo, então...
Lembro-me, ainda hoje, de quando as picadas que tomava eram tão fortes, que me induziram a realizar um legitimamente brasileiro conto-de-fadas americano. Um operário, partidário de esquerda, que era analfabeto, e tentava a 20 anos tentar a presidência do país, e jamais havia tido chance. Mas, incrivelmente, o operário pobre e burro virou presidente do meu país! E ainda me lembro da emoção de ouvi-lo dizer “meu primeiro diploma, é o diploma de presidente do Brasil”. Parabéns garoto! Um país tem o governante que merece.

Volto para casa. Fim da aula. O que me resta agora, é dormir, para deixar o corpo cansado descansar, enquanto se prepara para novas doses de drogas no próximo dia.

Como não poderia deixar de ser, depois de tantas drogas, para tantos controles diferentes, ainda preciso tomar mais uma. Preciso dormir. Pego o comprimido mental, tomo sem água mesmo, e me deito. Durmo.

Mais uma noite se passa, mais um dia começa, novamente tudo se repete, mas tenho esse pequeno momento em que minha mente está sã, e que posso falar e pensar com liberdade.

O que somos nós, hoje, que não podemos perceber a lavagem cerebral que nos é imposta? Seríamos nós mesmos donos de nossa própria vontade, ou não passamos de seres controlados por drogas morais inerentes e accessível a todos?

Ando pelas ruas, novamente, exalando este pensamento, e percebo que todos me olham como se fosse um lunático, um maluco, um idiota.

Preparo-me novamente, para poder consumir mais drogas morais: preconceito, racismo, medo, ignorância, desinformação, dinheiro, impossibilidade, e até mesmo falsos sonhos.

Sou um drogado. Esse é meu pensamento.

Mas você também é um drogado. Ou você pensa que é melhor do que eu?

Somos drogados. Usuários de drogas morais mentais imperceptíveis devido ao vício e ao consumo.

Trago mais um pouco de preconceito... a fumaça inebria meu pensamento...

Sou apenas mais um drogado...

Somos, todos, apenas drogados.



Para Flávio, pela amizade de uma mente aberta
Eduardo Setzer Henrique
Enviado por Eduardo Setzer Henrique em 09/10/2006
Código do texto: T260227
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Sobre o autor
Eduardo Setzer Henrique
São João Del Rei - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
56 textos (3144 leituras)
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Eduardo Setzer Henrique