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A MOENDA



Não parávamos um instante sequer, tampouco sob os raios abrasantes do sol e muito menos pisando no mato molhado de orvalho. Acordávamos de madrugada e corríamos para o curral que ficava longe, uns mil metros. Tomávamos o leite tirado na hora das tetas das vacas e a barriga estufava! Nada impedia o nosso dia-a-dia de travessuras: - poeira, planícies sem caminhos, pedras nos campos, urtiga, valas, nada impedia nossa passagem. Adorávamos a atmosfera aromatizada pelo esterco, pelo perfume do mato ou da terra molhada, entre outros agradáveis odores da roça. Namorávamos os poentes, lindos, vivos, vibrantes e carregados com toda força da natureza.

Ainda bem antes do almoço, empaturrávamo-nos de novo sob os pés de laranjas. Ah! Haja barriga! Após o almoço, bem mineirinho, o angu amassado no prato com leite. E não parávamos, tínhamos uma força e uma saúde extraordinária para tudo. Lá pelas três horas o caminho era o da moenda de cana, não acionada por escravos, mas sim por um velho burro que rodava em círculo, enquanto alguém colocava a cana na engenhosa e, novamente, nos “tascávamos”, conforme diz um amigo italiano, e até hoje não sei como o estômago armazenava tanto líquido e comida sem nunca sentirmos qualquer mal e, muito menos, dor de barriga. Comíamos de tudo, a qualquer hora. Era um outro mundo, sem dúvida.

O tempo passou, as coisas foram sendo modificadas. Os centros urbanos foram atraindo o pessoal da roça. Novas leis e novas obrigações para com os empregados tornando-os não mais pessoas da casa, mas seres ávidos de dinheiro e do “conforto” das cidades. E o campo, os sítios, as fazendas foram ficando abandonadas para infelicidade de todos os que lá viveram. A coisa toda nas cidades era bem diferente do que pensavam...

E até hoje esse processo de abandono continua e aqueles seres tão lindos, tão amigos, tão honestos vão se transformando em biscateiros, em pessoas amarguradas e tristes e até mesmo, alguns deles, moradores debaixo de pontes.
A decepção é muita. O preço do “progresso desumano” é demais...

Karuk
Enviado por Karuk em 10/10/2006
Código do texto: T261101
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Sobre o autor
Karuk
São João Del Rei - Minas Gerais - Brasil, 76 anos
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