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Dúvidas e Dívidas Eleitorais

                               Para Lilipoeta.

Há quem tenha engulhos de Lula, aquela figura mítica de metalúrgico, que liderou as graves do ABC, o nosso Mimi o metalúrgico da classe operária que vai ai paraíso, e pela primeira vez enfrentou a ditadura em um movimento de massas organizado. Os generais tiveram que engoli-lo, que conviver com ele. Correram boatos, na época, finais dos anos 70, início dos 80, de que ele seria uma espécie de Cabo Anselmo, um provocador a serviço dos patrões. Quem divulgava tais intrigas, acho que era a esquerda que se achava autêntica e detentora do monopólio sobre a classe operária, o Partidão, enciumado com o seu sucesso. Afinal, o Partidão nunca conseguiu alcançar as massas brasileiras, e os seus sucessores políticos (PPS) estão apoiando hoje o Alckmin.

A desavença, no meio operário havia começado quando o Delfim Netto, então ministro da fazenda, marretou os índices de inflação, colocando-o arbitrariamente em 12%, num ano em que não me lembro. Aqueles metalúrgicos ficaram fulos da vida, e, pela primeira vez, surgiu o argumento de que as perdas salariais tinham que ser compensadas. Surgiu, para as massas, o conceito de salário real. REAL, viu, não foi o FHC que inventou, vem da daí.

Como líder do sindicato, Lula entende muito bem os conceitos ecomométricos, sabe discutir como ninguém e arrancar bons ganhos para os metalúrgicos, sabe que não pode matar a galinha dos ovos de ouro e consegue se entender com os patrões e chegar a acordos razoáveis para ambos os lados. Logo surgiria o conceito de aumento de produtividade, e os operários reivindicariam também aumentos de ganhos relativos. Esse tino intuitivo sobre economia pode explicar a sucesso das políticas econômicas do seu governo e o relativo acordo que os empresários acertaram com ele. Lula sabe que tem que promover o bom andamento das atividades econômicas como única forma de incrementar empregos e renda, mas, talvez, seja também por tal motivo que foi presa fácil dos lobbies e dos grupos de pressão.

Em termos de ideologia política das esquerdas, Lula podia ser considerado o que antigamente se chamava de líder economicista, que lutava pelos ganhos monetários da classe trabalhadora, abstendo-se de pretender ousar a tomada do poder político. Era, então, combatido pela esquerda.

Mas, ledo engano, Lula participa da criação de um partido político que pretendia ser inovador e quer o poder.

A crítica do PT ainda está por ser escrita. Podemos vislumbrar, o que já desconfiávamos, que ele acabará por se tornar um partido como os outros, ao aproximar-se do poder, usando os mesmos métodos que sempre criticou, fazendo acordos com as tradicionais dinastias políticas, com os líderes oportunistas, com os populistas, enfim, o jogo político como é praticado. Um choque de realidade, um banho frio no purismo e puritanismo petista.

De tudo, o que resta? Resta o líder carismático com o seu discurso que provoca engulhos em alguns, as metáforas populares, os vícios de linguajem. Resta um país com a economia em ordem, pronto para crescer com aquele adendo sempre repetido, crescer com sustentabilidade, isto é crescer o que se pode, sem alavancagens e bolhas que estouram lá na frente desorganizando a economia. Restam muitos problemas a enfrentar no social, uma multidão crescente de miseráveis materiais e espirituais que, talvez, apenas Lula possa conter.

E resta também o igualmente importante posicionamento quanto a aspectos globais, a consciência que está se firmando quanto aos grandes problemas do século XXI, a questão ambiental, as guerras, as doenças emergentes, o contrabando de armas e de tóxicos, a aculturação dos povos, ou seja, mazelas que provém diretamente da ação desenfreada da livre empresa em escala mundial. E quanto a estas, não há dúvidas sobre qual o melhor candidato, mesmo com engulhos.



PS.
Para Lilipoeta.
Não fosse o PT e Lula, nem o Mercadante nem o Arns existiriam no ambiente político. Então, como você poderia votar neles?



Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 12/10/2006
Reeditado em 12/10/2006
Código do texto: T262616

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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