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A VERBORRAGIA QUIETA DOS PASSANTES

Dias de pés descalços, de calçadas nuas . De andar sem rumo, de parar talvez. Dia de Sol amarelo  e nuvens azuis , de pardais e de abutres .De silencios barulhentos mudos. A típica manhã de tantas manhãs .Das crianças que acordam  do sonho que um dia acabará. Do apressado motorista  que não suporta  o tempo de espera  no sinal. Da mãe  e esposa  que acorda ao lado do homem  que não é o Brad Pitt, ou do homem que acorda ao lado da mulher que não é a Angelina Joullie .É só  sua esposa-esposo de tantos dias , de tantas noites , de tantas brigas .Do patrão  que não espera , do relógio que não  para, da vida  que não pode dar um tempo .Voam  ressabiados sabiás  e sanhaços. Pastam  molemente cavalos velhos  em terrenos baldios  de lixos e de esgotos. A infância  se perde em prédios de linhas retas  e persianas curvas , onde o mais esperto tem que sobreviver  ao mais apto, e onde a dura  disputa  da selva  mudou-se para escritórios  luxuosos  e mesuras de homens  e mulheres  com verniz de civilidade .As  nuvens são nuvens por que nos chamamos de nuvens. O dia é dia  porque nos chamamos de dia , e a noite  segue o dia  como o dia segue a noite. A pândega vida que não é vida  de multidões garroteadas  pelo novo Deus ex Machina, do novo demiurgo  que demos o nome de tempo .Grossas , grandes e inumeras  multidões multicoloridas de roupas iguais, que praticamente andam da mesma forma , como  em " Metropolis" de Fritz Lang . A verborragia que  some no barulho infernal  da cidade  que é  muda  ao menino que faz  malabarismos no farol .Da mulher espancada pelo marido  por coisa  de somenos . Do mastodontico  caminhão que chapina água em cima do paletó  novo do  galante recem formado em seu primeiro emprego .A manhã segue  porque deve seguir .Que não pode parar para ver o colibri  beijar a flor , ou a moça de uniforme de bábá  que leva a criança de bochechas vermelhas  para o passeio, e os bêbados que pensam  que aquele disco amarelo  no céu é o último  poste aceso na rua . A silente massa  de pessoas que acordadas ,semi despertas e inconscientes esperam o metrô , o trem o ônibus. Silenciosos. Pesarosos  mas felizes , naquela estranha verborragia dos passantes.  
grotius
Enviado por grotius em 13/10/2006
Código do texto: T263330

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
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