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AO SOL

Cinqüenta e seis presentes. Ponto máximo de freqüência para uma assembléia sindical. Os aposentados intercalam-se com os ativos, costuram o desempenho com o conhecimento e alinhavam alguns casos imortalizados nas lembranças dos participantes. A história da carreira está mapeada nas presenças, a construção do presente vista nos pilares passados, os esforços passados vistos por uma perspectiva nostálgica...
A multiplicidade de olhares espelha o mundo possível, a diversidade de personalidades, a unicidade dos anseios básicos... Questões de ordem, análises de conjunturas, leitura dos indicativos para votação... A assembléia ocorre como previsto no regulamentado, os presentes se comportam nos padrões sociais estabelecidos.
O senhor sentado na última fileira faz anotações numa pequena agenda e balança a cabeça enquanto balbuciava algo incompreensível. Sua presença se destaca pelo anonimato. Aposentara-se há oito anos e desde então comparece constantemente aos encontros sindicais sempre com uma pequena agenda e o silêncio estampado nos seus discretos gestos.
Os ânimos exaltados fundamentam os acalorados discursos: “... a proposta recebida fragmenta a categoria”, “... devemos aceitar o que oferecem...” Ativos e inativos serão avaliados de modos distintos. As diferenças estão fundamentadas na impossibilidade de analisar o desempenho de quem não está em exercício. É uma tendência internacional.
A inatividade vai ganhando os contornos de impotência, os aposentados marcam firmes posições com os feitos de suas carreiras, resistem em vestir as frágeis vestimentas que lhes são ofertadas...
Quais serão os critérios?
Os sindicalizados se dividem. Alguns querem o aumento a qualquer preço, outros tentam alinhavar os interesses em uma proposta de luta conjunta. Ativos e inativos, gratificações e reajustes, discursos inflamados e silêncios gelados...
Por instantes o olhar do senhor percorre a sala e, com a voz impostada e a cabeça levemente inclinada, ele afirma que o momento de luta é agora e que devemos lutar pelos nossos direitos, pois, se perdidos, não mais reconquistaremos. O olhar amadurecido sustenta a pausa. Os presentes se entreolham e continuam as discussões. O aposentado recupera os gestos silenciosos e recomeça suas anotações.
Com o pensamento preenchido de tantos interesses contraditórios e com a presença do senhor ativa em minhas lembranças, fui assistir ao filme “Segunda-feira ao sol”, direção de Fernando Léon de Aranoa.
A primeira travessia aprisiona minha percepção. Sento-me junto aos personagens na embarcação e me solidarizo com suas inquietações, raivas e ressentimentos, sinto o gosto amargo de um trago de desencanto, a indiferença da sociedade pelos excluídos.
As diversas personalidades, dispersas no desemprego e compreendidas nas possíveis atitudes ou de passiva aceitação da inatividade, são assumidas com maestria. Sentimos a tensão e a vergonha no olhar de José quando o funcionário do banco alerta que o documento deve ser assinado pela “pessoa ativa”, indicando sua companheira que tem um emprego temporário; a indignação do ex-líder sindical, diante da passividade dos companheiros; o abandono do Amador, entregue à bebida; a persistência do Lino nas inúmeras entrevistas por emprego; o discurso alienado do Reina: “Só não trabalha quem quer... Emprego tem para todos...”.
O estaleiro fechou diante dos preços praticados pela concorrência dos coreanos e pela valorização do terreno à beira-mar que será loteado entre hotéis de luxo e shoppings centers, talvez de propriedade dos próprios coreanos. Os interesses capitalistas encerraram a honra dos desempregados e, aos poucos, o desemprego estrutural e a idade madura dos trabalhadores excluem definitivamente suas esperanças de reintegração no mercado produtivo.
Quais os critérios? Alguns desempregados permanecem sem ao menos saber o que significa critério...
O movimento de resistência se dissipou na rescisão de trabalho de alguns funcionários e na demissão sem direito algum dos demais trabalhadores que persistiram na luta. Todos perderam a capacidade de resistência e estão desempregados, retratados na metáfora dos siameses tão bem explorada numa lacuna do estado permanente de embriaguez de Amador.
A vida está ressecada, a luz é precária...
Sou contagiada pela lucidez da sentença de Santa (ex-líder sindical): “Vocês assinaram a rescisão dos seus filhos”. Lembro da forte afirmação do aposentado sobre a necessidade de lutar pelos direitos de uma forma coesa e me transporto da tela do cinema para os cenários cotidianos. Penso no futuro das condições de trabalho entregues a líderes enfraquecidos e a trabalhadores alienados.
A globalização do capital, o enfraquecimento dos movimentos sindicais e a indiferença da sociedade pelos excluídos são abordados com profundidade no filme “Segunda-feira ao sol”. Os encontros no bar, as máscaras, as desculpas, a fragmentação da família, o outro... Argumentos que encontramos no dia-a-dia e que precisam ser objetos de profundas reflexões para que não sejamos responsáveis pela inatividade de nossos filhos.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 20/06/2005
Código do texto: T26400
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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