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Rua da Itália

Recebi o e-mail de uma leitora de Itabuna que se dizia impressionada pelo amor que nós, poçõenses, temos pela cidade. É verdade. O contexto e o tema sempre são os mesmos.

Numa cidade pequena, convive-se durante anos com o mesmo padre, prefeito e amigos. Freqüenta-se o mesmo bar e joga-se no mesmo campo de futebol. As raízes, naturalmente, fortificam-se e tornam-se sólidas a essa terra natal.

Evidente que todo interiorano tem a sua história. Poções teve histórias que diferenciaram tantas gerações. A paixão pela Festa do Divino vem da possibilidade e vontade de tantos se reencontrarem. Por isso, somos tão reticentes às mudanças e a evolução da mesma. Cada ano será um momento novo e vai se perpetuar nas mentes das novas gerações.

Mas, na minha cabeça, povoa a Rua da Itália, onde tantas batalhas de badoques foram travadas pela geração anterior, a de Eduardo Sarno, como bem descreve no seu opúsculo lançado em 1988. A minha geração já usava badoques para caçar passarinhos, calangos e derrubar frutas. Lógico que Antônio Celso Sarno levou mais tempo dando umas badocadas na gente.
 
Eu me lembro de uma Rua da Itália mais moderna, começando na esquina do Beco Apertado - a esquina da Farmácia de Dr. Ari Alves Dias.

Subindo a rua, sobre o passeio de ladrilhos furadinhos, ao lado da farmácia, existia a coletoria estadual onde passaram coletores como Rufino, Carlos Rizério Lima, Luiz Ribeiro, Badinho Marques e outros.

Fernandão Schettini, filho de Rafael, já tomava conta do armazém, que era o ponto do comércio de peles e mamona. A relíquia de cor verde ficava estacionada no interior – uma camionete Fargo. Lembro de Rafael Schettini, com vistosos suspensórios, calça branca e gravata, sentado no escritório.

Ao lado do armazém, a casa de Dôca. Tinha uma oficina na garagem lateral e uma borracharia comum aos filhos – as forças dos pneus eram por ordem de chegada – cada filho tinha a sua vez e remuneração própria. Convivi com Tonhe, Paulin, Bada, Eraldo e Zé. Marcos, Marília, Adriana e Alex foram da geração mais nova. Eram constantes as presenças de Jeep´s, Rurais Willys e jipes Land-Rover de capota metálica, todos para consertos nas caixas de marchas e/ou descarbonização de motor. Acompanhava as desmontagens peça por peça. Vem daí a minha paixão atual pela mecânica.

A casa deles era ligada à nossa. Ficávamos conversando horas dentro dos jipes e simulando as marchas. Vez ou outra um jipe descia a ladeira e, sem freios, ia parar no posto de Miguel Labanca. Dôca balançava a cabeça, mandava empurrar pra pegar no “tombo” e novamente estacionar na frente da casa.

Já no primeiro ângulo da rua, começava o armazém de Fernando Schettini, filho de Miguel. Imensas pilhas de sacos de café e mamona para serem comercializados, mas antes o “caumonio aí” rolava solto. Os carregadores tinham trabalho intenso.

No mesmo prédio do armazém funcionava a oficina de rádios de Carlito Torres. Carlito, além da função técnica, tinha uma missão importante e interessante – era juiz de paz. Casais que brigavam eram apaziguados por ele.

A casa de Zóstenes Vaz era o ponto de apoio das nossas brincadeiras. Lá fazíamos circo, acampamento, fábrica de doces, balas e extrato de tomate. Zostinho, seu filho, era o estrategista e empreendedor da turma. Todo jogo de memória era trazido por ele quando transitava em Salvador. Dona Hilda,  Ênia, Stela e Paulinho sempre foram pessoas educadíssimas e com eles aprendi muito o respeito ao próximo.

Minha segunda casa era a de Corinto Sarno, meu tio. Como os netos dele só apareciam uma vez por ano, eu dominava todos os espaços. Eles viajavam muito para Salvador e me davam a tarefa de “dar milho para as galinhas”, colher as goiabas, as imensas mangas e as uvas. Em troca, eu podia sentar na cadeira de balanço e ficar horas ouvindo a Rádio Globo até que se iniciasse a “Voz do Brasil”.

No beco ao lado, só havia o escritório da Coelba, que ficava logo atrás do cine Jóia, um imenso depósito de materiais de Fidélis do Arroz, onde hoje é um banco.

O calçamento chegava até entrada do beco da usina de beneficiamento de arroz. O prédio da Prefeitura era uma obra imponente e abrigava o escritório do IBGE, que era chefiado por Vicente Ventura, um ferrenho vascaíno e ainda locutor do sistema de alto-falantes.

No sentido contrário, do outro lado da rua, a Igreja Batista. A casa de seu Alcides Fernandes era bem ao lado da Igreja.

Ao lado da Prefeitura, a casa de Luiz Sarno. Ali era uma central de distribuição do leite que vinha da Fazenda Caititu na camionete Ford amarela. O melhor quintal de Poções. Tinha todo tipo de frutas. Uma construção chamava a atenção – a cobertura da garagem era um belvedere com a vista maravilhosa para a Lapinha e a baixada das gramas.

Descendo no sentido da praça, era a casa de Carlito e Uchinha. Ela foi a responsável pela idéia de vender pastéis em tabuleiros de madeira, iniciando um novo sistema de vendas em Poções. Jorge (Diucha) era da outra geração mas gostava de andar com a gente.

O fórum era uma das atrações da rua. Da janela, sobre paralelepípedos amontoados, assistíamos aos grandes júris com a participação de Ernesto Benedictis, Dr. Ruy Espinheira, Carlos Nápoli e tantos outros que ali passaram. Eram brilhantes com aquelas togas. Também ali se guardavam e se apuravam os votos das urnas eleitorais.

Depois da ladeira que dava nas gramas, tinha a casa de Américo Libonati. Uma moderna construção com amplas salas e quartos. Brincávamos muito com Zé Américo nas suas férias. Sérgio e Paulinho ainda eram crianças.

A casa de Vicente Palladino tinha uma particularidade. Ele e Dona Teresa só tiveram filhas e todas usavam cabelos longos.

A casa de Fernando Schettini e tia Stella também era uma construção em estilo moderno. O movimento maior era no varandão, quando os netos Benício e Rafael Frazão, Rita e Rafaelzinho apareciam nas férias. A casa ficava sempre aberta e a varanda cheia com a presença de Deolino Frazão, Dona Teresa, Elier Barreto e Dona Adelina. Marco Antônio e Rafael eram pequenos. Essa casa era o nosso quartel nas brincadeiras de ladrão e soldado.

A casa que pertenceu a Valentim Sarno fora vendida a Ed Porto Alves e cessavam as possibilidades de exploração do quintal.

Emilio Sarno era o próximo vizinho. Também pouco freqüentei a exceção dos aniversários ou nas visitas.

O casarão dos Schettini ainda permanece com as mesmas características. O portão, com as iniciais de José Schettini, impressiona pela beleza da arte. Quando eu abria a porta de casa, avistava a figura do Seu José, no degrau, com a capa colonial. Soube que a capa está com Remo e quando for a Poções ele prometeu que vai vestir para refazer a cena histórica.

Outro local onde circulei livremente foi na casa de Fernando e Dona Aracy Schettini. Sempre os acompanhava nos jogos do Atlético no campo da Rua de Morrinhos e no cine Santo Antônio, onde as cadeiras da terceira fila, ao lado da parede, eram reservadas para nós. Zé Marinho era o grande amigo contemporâneo, mas eu era colega de Fernandinho. Pepetinha foi minha professora de Português na banca e no ginásio.

Não posso esquecer de Dona Fetinha Marinho, a mãe de Aracy. Ela foi a responsável pela introdução religiosa de muita gente boa, com a condução impecável da Cruzada Eucarística. A pequena ala direita do altar mor da Igreja Matriz sempre foi o local da “cruzadinha”, como ela mesma chamava.

Dezinho trazia o leite da fazenda deles em Morrinhos para ser comercializado em Poções. Sobre um jegue, era pouco provável ir a Morrinhos e não encontra-lo na estrada.

Finalmente, no último prédio do outro lado da Rua da Itália, a Tipografia de Seu Alcides “Batatinha” Fernandes. Ali eu matava o meu tempo livre. Admirava todas as funções. Todo mundo fazia tudo. Zé Armando era o tipista principal e eu ficava admirando os clichês prontos com as letras montadas ao contrário. Joel de Jacó operava a máquina de impressão, Jessé dava o acabamento final na guilhotina e João Batatinha, além de excelente jogador de futebol, supervisionava a tudo e a todos. O barulho da máquina de estampar e o mecanismo de renovação da tinta me fascinavam. Dali saiam os panfletos dos políticos, os talões de notas e um periódico com notícias de Poções redigidas pelo Seu Alcides.

O sobe e desce da Rua da Itália ainda é muito interessante. Grande parte da vida da cidade sempre circulou por ali. Circularam gerações, circulou a história de Poções e circulará o futuro.

A leitora, agora, vai entender por que o amor que temos por essa cidade é fraterno e eterno, como numa grande família. Mas ainda sinto saudades das fogueiras de São João, da tradição dos envelopes com dinheiro na passagem de ano, da exibição de presentes no dia seguinte à noite do Natal e dos vatapás e carurus que ainda recebemos dos nossos vizinhos na Semana Santa.

Um dos poucos símbolos da presença italiana continuará aí, resistindo. O comércio avança sobre ela. Os filhos da Rua da Itália estão pelo mundo afora. Mudaram a placa para Rua Itália. Não mudaremos a história. As minhas lembranças serão eternas.
Luiz Sangiovanni
Enviado por Luiz Sangiovanni em 17/10/2006
Reeditado em 22/05/2007
Código do texto: T266976
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Sobre o autor
Luiz Sangiovanni
Poções - Bahia - Brasil, 60 anos
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Luiz Sangiovanni