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Grã-fina Modéstia




           Há quem diga que o romantismo não existe, não existiu e que não existirá! E até mesmo se atreva a dizer que, se por acaso existiu, não deu certo! A prova disso é que mesmo em ficção, como o caso de Romeu e Julieta, obra do dramaturgo inglês, Shakespeare que, mesmo em ficção, eles morreram.
       Pois bem: para destruir a incredulidade dessas pessoas em relação à esperança dos sonhos dos mortais, que é o romantismo, e que o fruto desse sentimento tão maravilhoso; origina um sentimento ainda maior da existência humana, que é o Amor; esse sentimento tão cobiçado por raparigas, viúvas, meretrizes, mulheres casadas e mal amadas... E também, lógico, por homens, embora esses últimos, como podemos observar, são mais teimosos em admitir, vou contar um caso:
        Conheci em 1962, um jovem casal em uma pequena cidade litorânea de Sergipe. Mais precisamente, a cidade de Pirambu. Cidade aquela que a população não passava os 1200 habitantes, creio eu, e hoje, quase na virada do século XX, a população, segundo pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), passa a casa dos 7500 habitantes e que vivem inteiramente da pesca e turismo.
         Pirambu é um lugar de paisagens belíssimas... A água do mar beija as brancas areias onde tartarugas marinhas encontram seus portos-seguros e invadem as dunas para desovar; as mesmas dunas, onde o vento faz canção açoitando as palhas dos coqueiros; Pirambu... lugar onde a lua cheia ilumina o horizonte e faz um belo cartão postal natural, transmitindo tranqüilidade e fazendo com que os casais de apaixonados transformem-se em poetas... “Não conhecer Pirambu, é perder a chance de conhecer o paraíso, ainda  em vida!”
        – Ei! Não estou traçando esses rabiscos fazendo papel de guia turístico; se alguém duvidar que existe tal paraíso vá lá e confirme (aconselho a ir)! Só quero falar sobre um casal que, como tantos que acreditaram no romantismo, foram e são felizes, ora bolas!...
         Continuarei a contar a estória que seria do Romeu e Julieta na versão brasileira. Os nomes são fictícios, lógico!
         Ele: João Evaristo Bartolomeu. Ela: Maria Edleuza Gardenha.
         Até que eu poderia escrever o nome dessa estória de João e Maria. Seria, inclusive, muito romântico. Mas, também, seria um plágio ao tal nome e eu não posso me expor a comentários e a fofocas...
         Aqui começa uma pequena estória de João e Edleuza. Como eu falei, em 1962, tempo em que galinha era alimento exclusivo dos ricos. Talvez não tão ricos, mas, abastados. Comida de pobre, era o bacalhau. Isso mesmo! Esse bacalhau, que hoje só os ricos ou abastados podem comer. Há uma frase que diz: ...No tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça.
        Seria, mais ou menos, referindo-se a essa inversão de alimentos. Em Pirambu, como era uma pequena aldeia formada por pescadores, o peixe era o alimento mais freqüente entre os moradores. O caranguejo uçá, também era um alimento bastante comum. Principalmente se os pescadores fossem pescar e não trouxessem  o esperado peixe. Esses deviam  contentar-se com caranguejo uçá ... O caranguejo uçá  de cada dia.
         Não devo mais encher lingüiça! Devo, sim, falar sobre o casal de pombinhos.
         João era um jovem moreno claro, forte, bonito... fora dos padrões dos nativos da pequena aldeia. A sua ida a Pirambu foi por  motivo de passeio na casa de parentes. O seu olhar cruzou com o de Edleuza e foi paixão à primeira vista.
         Moça recatada, honesta, simpática... me arrisco até em dizer: donzela! Isso mesmo amigos, Leitores!... donzela! Se alguém fizer críticas contra a minha pessoa, por eu acreditar, que a Edleuza era donzela, não me incomodarei: amigos, ela jamais tivera um namorado! Qual outro motivo haveria pra tais dúvidas?
        Bem, continuemos... Era uma moça bonita, e seu pai, José Simeão, a tinha sobre rígido controle. Não só a Edleuza, como também, a sua irmã mais velha por nome de Terezinha. Essa última já completara os quarenta e dois anos e também não tinha arranjado um único namorado. Um único para remédio como diziam as fofoqueiras da Rua Atalaínha: Cita, Maroca e Marielze.
        Preocupados com o destino da donzela, a mais nova, que já completara trinta e três anos, os pais resolveram deixá-la à vontade com o João. O máximo que poderia acontecer seria a moça engravidar. E as más línguas contavam que, se isso acontecesse, seria bom para a família. Só assim daria continuidade a existência da família Simeão.
        As declarações de amor não faltavam: era a cumplicidade  surgindo em cada palavra, cada gesto, sonho, desejos ou confidências. Embora uma donzela tenha poucas confidências; tenho a impressão que a mais ousada seria a revelação dos seus sonhos: casar, ter muitos filhos e ser feliz para sempre.
       – João tá gamado– dizia Maroca.
       – Parece que o homem tomou  água de calçola–falava Cita.
       – Ô amô da peste, muieres! Os dois num se sorta prá  nada! –comentava Marielze.
       Por melhor dizer,  a Rua Atalaínha era conhecida como a rua da fofoca, graças à aquelas três filhas de Deus.
        Entre as confidências, palavras de amor e promessas de  eternidade juntos, que quase sempre partia do macho, por timidez da fêmea, o romance seguia a mil maravilhas.
       Galanteador, o João quase não ouvia as palavras da namorada. Não quero dizer que o mesmo não prestasse a atenção, mas, por estar fascinado pela beleza da moça que, pela segunda vez reclamou que comera galinha e não estava se sentindo bem.
        Na quarta ou quinta vez, foi possível ouvir o reclame da sua deusa...
        – Desculpem-me, Leitores! Quero dizer, Edleuza!
        – Fale, amor...O que estás sentindo?
        – Estou um pouco indisposta... comi galinha ensopada e não me fez bem.
         Para o jovem era algo tão simples que não deveria preocupar-se.
         Na ansiedade de roubar-lhe um beijo, João, não controlando seus impulsos, ao aproximar seus grossos e atrevidos lábios da desejada, sentiu que algo estranho estava saindo dos lábios da moça. Não era a umidade da volúpia do beijo e sim, a umidade de golfadas que saiam intermitentemente e com forte odor. O mesmo afastou seus lábios e conseguiu enxugá-los com um lenço que retirou do bolso da calça.
         Meio desconcertado e preocupado, ele viu os dejetos do vômito; mas, em vez de galinha, viu dejetos de caranguejos; pequenos pedaços dos crustáceos que tinham sido devorados vorazmente.
         Sem jeito, ele ainda tentou ser gentil.
         – Amor, posso fazer alguma coisa por você?–ele perguntou, enquanto ela, inibida mais que nunca, entrou em casa às pressas e em prantos. Estava morta de vergonha e jamais voltaria a vê-lo.
         Ainda chorando, correu para o quarto onde ficou trancada durante toda a noite e o dia seguinte.
        – Minha filha, o quê há  contigo?–perguntou sua mãe, aflita pelo choradeiro incontrolável da filha.
       Tudo em vão!
        Os pais não sabiam o que fazer, muito menos, pensar; só imaginavam que a virgem tivesse sido deflorada. Mas longe de cogitação.
        Preocupada agora com a desolação dos pais, Terezinha explicou-lhes o que tinha acontecido e também envergonhada por terem descoberto que a mesma ficava praticando o voyeurismo no namoro da irmã.
        Passaram dias, semanas e até a esperança de um novo namorado desaparecera.
        Mas, coisas do destino...
        Estava a moça a olhar a janela. Olhar vago, distante. Olhar sem esperança. O buzinar da marinete não mais a comovia. Não lhe transmitia a ansiedade do esperado amado que, morando em Aracaju, partia para aquela aldeia de  pescadores às sextas-feiras.
        Era uma tarde comum. Tão comum que Lubião, um gorducho funcionário dos Correios e Telégrafos fora buscar o malote de correspondências e voltava instantes depois  com uma carta na mão.
       – Edleuza, tenho uma carta prá você!–falou o carteiro.
       Não podia ser verdade–pensou a jovem, ao estender o braço a fim de recolher a missiva. Mas a missiva era realmente para a jovem desconsolada.
       Destinatário: Maria Edleuza Gardenha
       Remetente: João Evaristo Bartolomeu
       – Mamãe, mamãe, uma carta do João! Carta do João! Correu em disparada a fim de violar o lacre do envelope.
        Mas, ao mesmo tempo, veio-lhe a interrogação, veio-lhe a insegurança. Se  a carta estiver desmanchando o namoro? Já  que ele fora embora e não trocamos  uma única palavra... Sim! Certamente esta carta só pode  tratar do desmanche do namoro!
       Mesmo se a ansiedade, curiosidade e o suspense tomassem conta de Edleuza, ela teve que ser mais forte; teve que superar toda a sua fraqueza e não abrir a carta.
       – Devo ou não abri-la? –perguntava-se e o conflito interior era algo marcante; as mãos começaram a tremer, e ela pensou: o meu namoro está definitivamente acabado. Isso mesmo! Essa carta só deve estar tratando disso.
      Correu para o quarto e escondeu-a debaixo do colchão enquanto mais uma vez o pranto se fez presente.
        Não desejaria mais ouvir falar da carta. Muito menos, abri-la. Rasgar, nem pensar! Como foi o seu primeiro namorado, quem sabe, o primeiro e último, deixaria a carta para quando  chegasse a velhice; só assim, teria a coragem de ler a tal carta e não mais sofreria. O tempo faz agente esquecer–pensou.
        Na sexta-feira seguinte, às 17h30min, como de costume,  a marinete buzinou. Era o primeiro sinal da sua chegada.
        Com ela, muitas novidades: as pessoas riam, corriam ao encontro de parentes e amigos, choravam de alegria...
        Como que em passe de mágica, João Evaristo desceu todo faustoso. De terno branco e sapato preto,  que brilhava mais que sapato de militar em dias de parada.
         Ao deparar-se com a Edleuza, ele ficou pasmado...
– Ué, meu amor... Você ainda não está pronta, por quê? O Padre Inaldo não pode esperar muito tempo. Você não recebeu a carta?
      Quase sem respirar, pela surpresa do João Evaristo encontrar-se à sua frente, ficou boquiaberta, parada... não tinha lido a carta para saber que a mesma se tratava do casório...
       –Vamos, meu anjo!–continuou ele–não vim nas duas últimas sextas-feiras passadas preparando os documentos–ele falou ainda tentando se explicar.
        Sem ainda compreender, ela o observou e ele mais uma vez lhe pediu que se apressasse pois, seus pais já tinham seguido para a Igreja da Matriz para acertar o casório com o Padre Inaldo.
       Foi a maior correria! Em uma hora conseguiram arrumá-la e,  segundo as fofoqueiras, nunca viram um casamento tão bonito quanto aquele!
       A carta só foi aberta por uma das suas seis filhas, a Rita, de dezoito anos,  que me entregou e me contou maiores detalhes dessa fascinante estória.
       Não se sabe se capricho dos deuses, a insegurança dos bons velhinhos, estejam onde estiverem, não mais existe. Pois, dessa população de aproximadamente 7500 habitantes, que hoje são pirambuenses, dez por cento pertencem ao "CLÃ" dos Simeões. É POUCA ESSA MODESTA?!
                           


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carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 18/10/2006
Código do texto: T267391
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
102 textos (5962 leituras)
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carlos Carregoza