Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Numa praça.

Caminho pela praça. Descalço. Olho para cima e é sol. Por trás dos prédios, nuvens cinzentas. Ainda há de chover.
Indo devagar, observando a tudo. Estranha mania de observar a tudo.
Crianças correm ao meu redor. Sabem correr e mal sabem falar, nem pensar, nem existir. Correm pelo simples prazer de sentir o vento estapear-lhes a face. Os pais as observam orgulhosos.É engraçado vê-los correndo também, desesperados, quando uma delas cai. Correm para protegê-las.
Uma pipa perambula pelo ar. Sigo a linha que ela projeta. À frente está a sua pequena dona, com um homem que aparenta ser seu pai. Quanta dificuldade. A pipa mal se sustenta e a pequena chora. O pai, aflito, consola-a e tenta ensiná-la a empinar a teimosa pipa. Diminuo o passo para observar(movido por uma curiosidade que foi maior que a força dos meus pés). Este é, possivelmente, um pai maravilhoso, afinal, há tantos que só ensinam a seus filhos valores éticos e morais, esquecendo de todo o resto(ou todo o tudo). Fico pensando se eles sabem que, quando cresceram, perderam outros tão, ou até mais importantes que todo esse beabá. Eis aí uma exceção. E toda exceção é uma esperança.
Sigo o meu caminho. Num banco um mendigo dorme. Retrato do fracasso. Bêbado. No seu rosto, queimado(pela origem e pelo sol), sombras se formam de quando em quando. Sombras de uma pipa. Rio. Aquele riso amargo que sai mesmo sem querer.
Um casal de idosos caminha tranqüilamente. Nem se quer me notam. Eu não me faço chamar a atenção. Ando pela grama, mal tocando o chão.
Num banco ao longe uma mulher sozinha chora, ao lado do seu poodle, falando ao celular. No banco ao lado, meninos de rua contam, alegres, os pequenos trocados que conseguiram no início da manhã.
Estranha relatividade de todas as coisas. Estranho tempo que não é chuva nem é sol. Estranha capacidade de ser ignorado e não ignorar. Estranho choro de abundância ao lado de tanto riso de miséria. Estranha falta de paz numa manhã comum.
Do outro lado da praça uma mulher acaba de ser assaltada. E eu sei que só eu vi.
Estranha mania de observar a tudo.
TMB
Enviado por TMB em 18/10/2006
Reeditado em 18/10/2006
Código do texto: T267411
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
TMB
Maceió - Alagoas - Brasil, 25 anos
42 textos (9388 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 00:33)