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O OCASO DA HONRA!

O OCASO DA HONRA!

Nasci entre casarões seculares (Diamantina-MG) transitando por calçadas estreitas e ruas de pedras escorregadias. Das treliças, senhoras de véus na cabeça davam sorrisos escassos.
As “topadas” eram constantes nos lisos limos das pedras roliças, causadas pelo limalhar das ferraduras dos animais de tiro e de cargas, entretanto, não havia sorriso da desventura... Respeitavam-se as dores alheias!
As moças só passeavam com os namorados até às vinte e uma horas, após esse período, retornavam para junto das companheiras e iam para as suas residências.
Os meninos, em suas peraltices, brincavam pelas ruas e também se recolhiam cedo; quando extravasavam nos folguedos, bastava um leve “raspar de garganta”, mesmo vindo de um estranho adulto, para que dispersassem envergonhados.
As conversações eram amenas e respeitosas.
Os ébrios eram levados para as suas casas (até pela polícia). Os doentes mentais recebiam comiseração e piedade e, os mendigos, só pediam (e recebiam) alimentos.
Os policiais eram, às vezes, ríspidos, no entanto, dificilmente eram arbitrários e\ou violentos desnecessariamente.
Os padres tinham as suas mãos e anéis beijados pelos passantes e, as freiras, eram recatadas, reservadas e... Respeitadas!
Os médicos eram conhecidos pelas suas valises negras, roupas e sapatos brancos e pelas visitas domiciliares constantes aos seus doentes.
Uma senhora casada nunca ria em público, nem mesmo para um conhecido ou amigo mais “chegado”.
Os crimes contra a vida humana, os costumes e os roubos, eram raros. As soluções dos delitos dos costumes eram resolvidas em família e, quase sempre, havia o casamento reparador. Os roubos eram raríssimos; os furtos eram “quixotescos” em sua maioria e o ladrão não matava as suas pretensas vítimas, preferindo fugir ao primeiro alarme da sua presença... Não havia esquadrões da morte! A sociedade isolava o crime sem marginalizar o criminoso, porém, se o delinqüente vangloriasse do delito praticado, era banido do aceite social ordeiro.
O homossexual era raro, e “sapatão” era mesmo sapato grande.
O ar era puro e a água cristalina.
Após a segunda grande guerra mundial e a conseqüente inter-relação dos costumes estrangeiros aos nossos, o brasileiro, ainda campestre, não estava preparado para a “istória” e, intelectualmente... Para a mudança!
Atirou-se de corpo e alma ao banquete dos novos hábitos e, avidamente, entregou-se a liberdade não vigiada. As mulheres cortaram os seus cabelos, as pinturas e roupas extravagantes foram invadindo os “armários da vida simples”, a fome, a miséria e a enfermidade, foram grassando e minando a sociedade bucólica e despreparada.
Os costumes de então foram dilapidados bizarramente, porém, a lapidação não alcançou as arestas e, sim, o âmago do povo recatado onde não tinha o que ser secionado. O cinzel da abordagem penetrou no seio da moralidade e da simplicidade, contudo, não podendo o MAL sobrepujar o BEM... Mesclou-o!
Essa lapidação destruiu a convivência pacífica, a hospitalidade espontânea e a honestidade!
Os casarões antigos foram sitiados pelas mansões e, essas, pelos barracos de tábua e papelões das favelas:
Os cadeados, grades de ferros e animais ferozes, passaram a ser o termômetro que media e dividia as castas sociais.
O sorriso fugaz das senhoras transformou-se em gargalhadas... Até pelas ruas!
Os namoricos e “flertes” passaram a transcorrer nos nichos escuros e escusos de bares e restaurantes musicais pela noite à dentro.
As brincadeiras das crianças tornaram-se eletrônicas, armadas e perigosas: O Pato Donald transformou-se em “He-Man” e “Rambo”!
Os padres e as freiras foram marginalizados e, para difundirem o evangelho, tiveram que se adaptarem ao convívio social desgastado.
As conversas amenas transformaram-se em disputas renhidas com gritarias estridentes pela calada da noite, misturadas de palavras de “baixo calão”.
Aumentaram-se os delitos, principalmente os contra a vida humana. Ser criminoso não era mais considerado vergonha para a maioria: Era a lei do machismo misturando, erradamente, “homem com macho”.
O ar ficara cada vez mais impuro em todos os sentidos e direções!
A Honra... Passou a ser uma vã fechadura em portão de isopor e pilares de vidros, contendo uma avalanche de impropérios e disritmia mental moldável ao “ser” simplório e indefeso que a invocasse:
Quando era honra é invocada por um cafajeste salafrário as resultantes das más ações transpõem o isopor e proliferam!
Convocada por dirigentes venais e desonestos, a devassidão passa estilhaçando o vidro, mas... Se invocada por um homem de bem, honesto e cumpridor da ética de seus deveres, a fechadura se incorpora ao isopor e ao vidro, entrelaçando-os, e não dando vazão aos absurdos, entretanto, através da transparência do isopor e do vidro, os corruptos vêem o mal ali contido pela honra e, não podendo libertá-lo, passam a atacar a fechadura considerando o homem honesto como um dissidente beato e/ou o marginalizando daquele meio social defécto e mal lapidado:
 “CHEGARÁ O DIA EM QUE O HOMEM TERÁ VERGONHA DE SER HONESTO”...
 (Que saudades dos tempos idos e que não voltarão jamais!).

(S/A/ BARACHO)
E-mails conanbaracho@uol.com.br
Fone: 0(xx)31 3846 6567
Sebastião Antônio Baracho Baracho
Enviado por Sebastião Antônio Baracho Baracho em 18/10/2006
Código do texto: T267484
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Sobre o autor
Sebastião Antônio Baracho Baracho
Coronel Fabriciano - Minas Gerais - Brasil, 79 anos
421 textos (19434 leituras)
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Sebastião Antônio Baracho Baracho