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NOITE VAZIA

Noite de quinta-feira. Duas mulheres entram no bar vazio. Escolhem uma mesa bem no centro do salão para dançar ao som da banda. O garçom informa que ainda é cedo. “O pessoal chega mais tarde. A banda começa a tocar às 23.” As duas aproveitam a calmaria para beber uma cerveja e falar sobre as expectativas e acabam desaguando no amplo oceano das experiências amorosas. Os encontros, as relações e os desencontros.

À noite, falar sobre emoções passadas é ressuscitar sombras, trazer corpos perdidos no tempo e reencontrar o olhar num flerte com a memória. Ousado atrevimento. Provocar os mortos é sempre perigoso, traz estigmas acobertados pelo mítico poder que apaga os ressentimentos e traz a satisfação como se fosse o universo das relações interrompidas.

Breve jornada noite adentro. Quase uma hora, mais oito pessoas. O pessoal se fragmentou e chega em partes. “Têm dias assim... O pessoal chega mais tarde”, insiste o garçom.

Um homem fala no celular, disfarça a falta do encontro marcado, talvez insista por uma nova possibilidade, um casal de apaixonados insiste em contrariar as leis da física e comprovar que dois corpos podem ser uma unidade, na mesa ao lado, um homem de aproximadamente cinqüenta anos sorri em busca de alguma comunicação, ancorado nos sucessivos copos de vodca, e, no balcão do bar, quatro homens empoleirados esperam a multidão que está por chegar. Caçadores (ou predadores) da madrugada aguardam as estações propícias para saciar a fome dos desejos.

A banda adia o início do show. “O pessoal chega mais tarde. Daqui a pouco lota.” Os músicos bebem e recordam os que ainda não chegaram, relembram as noites mais afamadas, os aplausos.

Os gestos tornam-se ligeiramente embriagados. Já não bastam as palavras, os celulares... Quase sexta. Os ponteiros se aproximam, o homem da mesa ao lado levanta-se e cambaleia ao redor das mulheres, tenta aproximação, sorri, mas caí na armadilha das palavras embebedadas. “Cadê o pessoal?” Puxa a cadeira e senta-se à mesa delas com naturalidade. O ser gregário em busca do encontro interrompe as confissões das amigas.

O homem tenta o olhar, os elogios recorrentes, uma aproximação com um leve toque no braço, mas é traído pela nostalgia alcoólica. Afinal, ele prestou atenção às palavras soltas e os gestos das mulheres durante todo o tempo que permaneceu na mesa ao lado. Ele também tem o direito de fazer suas confidências. Darcilene, sua ex-mulher, é ressuscitada nas qualidades mais esfuziantes. Ele não consegue esquecer, ele já não pode recordar com fidelidade.

Lala. Ele se apresenta pelo apelido e enfatiza seu nome mítico Laertes... Repete o nome algumas vezes com a voz enrolada dos bêbados. “É um nome difícil...” Desafia as desconhecidas a reconhecer o personagem que inspirou seu batismo.

“Laertes, filho de Polônio?”

“Quem?”

“Hamlet, Shakespeare...”

“Não. Laertes, pai de Ulisses na Odisséia de Homero. Laertes, o coveiro!”

As duas mulheres se olham assustadas. Coveiro? Laertes, o pai ou o filho? O herói de Ítaca ou o sobrevivente do divórcio? Coveiro? Um descuido, uma extravagância ou um ato falho?

Fim de noite. Chega! Cada qual sai com seu espectro. Nem vestígios do casal que, a essa altura, já consagrou a unidade dos corpos. Os homens empoleirados no balcão falam entre si, alguns papos incidentais, lugares comuns. Laertes é a metáfora da noite vazia, um coveiro do dia no sepulcro de sua impossibilidade, as mulheres gestam o prazer natimorto dos pretéritos encontros, o homem desliga o celular, a banda cancela a apresentação.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 20/10/2006
Código do texto: T269350
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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