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O Homem que Sabe Demais


Penso que começamos a morrer quando o sangue já não consegue mais fluir livremente por todas as partes do corpo. O sangue é esse maravilhoso mar interior que carrega as energias renovadas do universo. Cada pequena célula precisa dele para se manter. E o sangue tem que circular, se manter em movimento, como um tubarão tem que nadar indefinidamente para continuar existindo, ou os planetas tem que percorrer o espaço. Sempre.

Parar é impossível, parar é morrer, é estagnar, não existe descanso para nós, nem para qualquer pequena partícula de matéria, ou para qualquer ínfima porção de energia. É assim que se começa a morrer, parando, o sangue parando, deixando umas células sem suprimento, morrendo, morrendo, se extinguindo. E se pode morrer aos poucos, uma célula, depois outra, depois mais outra, até que uma grande parte do cérebro morre e abre-se ali uma lacuna de pensamento, um buraco de sentimentos, uma história que não se completa e não é mais entendida.

E o que é realmente triste no que, convencionalmente, se chama de condição humana, é que, no final, as histórias não mais existirão, e não porque não sobrará ninguém para contá-las, mas porque não haverá ninguém para ouvir. E você, homem que sabe demais, não terá com quem conversar. Continuará a sua existência de pedra, um sorriso búdico inscrito na pedra ainda não dinamitada, aguardando que uma nova respirada do deus criador renove as condições para a vida. Depois, esperar pacientemente que toda a evolução animalesca aconteça, que os embates de répteis gigantescos e de paquidermes egoístas se esgotem e se convertam, de novo, em espiritualidade e delicadeza. Pense em uma música enquanto isso, e assobie-a por uma eternidade.

Mas, por enquanto, estamos vivos e temos obrigações. Eis porque nos levantamos todas as manhãs e vamos trabalhar, após o banho e a barba feita, olhando um rosto vagamente conhecido no espelho. Queria ficar na cama hoje. Mas não posso, temos as tais obrigações para com muita gente, temos que ganhar dinheiro, temos que pagar impostos, temos que sustentar muita gente, temos que manter o mundo girando, como se dependesse de nós.

Mas ao mundo, nada lhe importa, ele gira, gira, como lembra o tango, gira conosco ou sem nós. Então pra quê tanta preocupação? Relaxe, meu camarada, e se maravilhe. Deixe o seu sangue fluir livremente por todas as suas partes, ou a sua memória se atrofiará, e você deixará de ser o homem que sabe demais. Não faça dívidas e ganhe apenas o suficiente. Não caia na armadilha das prestações, e se livre dos cartões de crédito, para não empenhar o seu futuro incerto. Seja comedido em tudo, principalmente nas palavras. E reconheça, afinal, que por mais que você ache saber, muito maior é a parcela da sua ignorância.
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 20/10/2006
Código do texto: T269370

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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