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Mariana e sua vida no manguezal

                                 

                 Mariana vive em um casebre feito de resto de tábuas de caixotes, recolhidos no SEASA e pelas ruas. Tipo pau à pique, para livrar-se das cheias da maré e a invasão de caranguejos e outros animais do mangue. O cheiro forte do local é insuportável. Ali vive Mariana com sua mãe e o irmãozinho de colo, O pai deixou a família e voltou para o Norte.
                 
                Fiquei chocado ao encontrar Mariana, 11 anos, olhos tristes, roupas rasgadas, chinelinho de dedo corroído pelo tempo, não era azul nem preto. Cabelinhos ruivos emaranhados, pente ali acho que não existe. Dentes estragados. Alimenta-se, segundo me contou uma vez por dia. Sonha um dia em ser professora. A  miséria é total. Triste realidade de ser realizada. Só um milagre.
                 
                Matriculada numa escola Municipal local, cursa a 1ª Série pela terceira vez.  Falta muito às aulas. Em sala de aula dorme quase todo o tempo. É a primeira que chega ao refeitório na hora da merenda. Seus colegas a chama de barrigudinha manca do mangue, Mariana tem um problema na perna.
                 
                Quase não brinca. Passa a maior parte do dia cuidando do irmãozinho, e arrumando os poucos pertences que compõe sua casa. Apresenta uma qualidade visível, é caprichosa. Quando lhe sobra tempo fica na janela feita de caixote de bacalhau, admirando o mar de águas turvas meditando não sei o quê. Quando sua mãe não pode é ela que vai ao lamaçal do mangue apanhar caranguejo para ser vendido à beija da estrada em troca de alguns reais, que se converterá no parco arroz e feijão e talvez uma lata de leite. Assim vive Mariana.
                 
                Perguntei o que espera ser quando fosse maior. Ela com seus olhos luminosos cheios de esperança respondeu: “ Se um dia conseguir me livrar desse horror e freqüentar mais a escola - ser professora, para ensinar as outras crianças o que não aprendi.”
                 
                Para Mariana, criança paupérrima e sofrida, só resta manter pela vida, dentro de si, a esperança de um dia libertar-se dessa vida no manguezal.


                                            Paulo Sérgio dos Santos

Pappe
Enviado por Pappe em 20/10/2006
Reeditado em 19/04/2007
Código do texto: T269481
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Sobre o autor
Pappe
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil
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