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PASSAGEIROS DO PASSO E A ARCA DE VIVER

Estação 01:
DA TERRA, DOS BICHOS, DAS GENTES E DOS BARCOS

O Passo de Torres, pequena cidade ao sul de Santa Catarina, na divisa com o Rio Grande do Sul, é uma porção de terra de cerca de 100 km² banhada pelo Oceano Atlântico e pelo Rio Mampituba, o qual – soberano de águas e vida – reina, ora plácido, ora ágil e sempre caudaloso na foz ribeirinha razoavelmente piscosa, caminho de ida e de retorno, particularmente nos períodos de piracema, para a gesta de sobrevivência de sua expressiva população ribeirinha dentre os pouco mais de 5.000 habitantes – esta largamente dependente das atividades econômicas a partir da pesca e seus entornos.

Do mar grosso chegam diariamente, no período de captura do pescado, dezenas de barcos atulhados de frutos do mar, ao sabor dos traiçoeiros ventos à entrada da barra, junto aos molhes, observados do alto pelos farois de navegação Norte e Sul. O Passo também é um paraíso para o turismo esportivo e para o lazer de levas de veranistas brasileiros e do cone sul da América, durante o período de verão. Por vezes, cardumes de tainhas, bagres e cardosas (uma espécie de sardinhas ocorrentes na região), dividem o rio com catamarãs de turismo, barcos de pesca profissionais, botes, caiaques e jet skys dirigidos por nem sempre hábeis pilotos sazonais, par-a-par de alguns golfinhos marinhos, que, na disputa de alimento para a sobrevivência, encantam o observador graças ao bailado de perseguição às tainhas e outros espécimes, cujos dorsos rebrilham ao sol como fugidias estrelinhas nascidas sobre as águas também ágeis.

Segundo se diz à boca pequena (e o escriba é mero delator da voz e do sentimento popular), centenas de milhares de toneladas de produtos do mar in natura circulam pelas estradas do amado e bem-visto lugarejo – uma aldeia provinciana de muita paz e tranquilidade – em modernos caminhões refrigerados, sem nota fiscal, em direção a Laguna e outros municípios circunvizinhos, minguando a receita de impostos sobre a circulação de mercadorias, em âmbito municipal. Também há o triste hábito do não fornecimento de notas fiscais e a não exigência deste documento por parte do povo passo-torrense, em vários estabelecimentos comerciais de secos e molhados, o que faz com que a economia seja sempre minguada em comparação com outros municípios catarinenses de similar tamanho e vocação, no tocante à receita mensal do imposto sobre a circulação de bens de consumo, que, aliás, é recolhido por imposição legal do Estado-Membro e retorna ao município em parcelas que não atendem à demanda.

Com esta prática, a administração municipal obtém receita mínima para atender às necessidades da população, que, em geral, é composta de trabalhadores vinculados à pesca, à pecuária de leite e de corte, e à agricultura familiar, na área rural, especialmente na formosa região topográfica de raiz agropastoril que vai ao vizinho município de Sombrio pelas estradas vicinais a partir dos Curralinhos, passando pelo rico viveiro natural e turístico do Morro dos Macacos. O sol e o humor dos ventos regulam o andamento da vida, tal como as dunas arenosas muito claras ao sol, e que constantemente mudam de lugar. No entanto, a população depois de estabelecida migra pouco e os estamentos sociais convivem em harmonia, com exceção dos jovens que têm de sair ao mundo para buscar perspectivas de futuro e sobrevivência. A vida de relação, aqui, se regula pelas estações e seus humores sazonais.

Capivaras, ratões-do-banhado, preás, gambás, zorrilhos, lontras, bugios, macaquinhos trigueiros, sapecas e saltitantes, gaivotas, biguás e outros pássaros marinhos regionais e os de arribação, quero-queros, pardais, saíras e caturritas, com seus estridentes concertos, fazendo a algaravia do deitar e acordar do dia forram de som, luzes e cores o ambiente espacial. Cotidianamente há cães sempre esfomeados e gatos que assistem furtivos e manhosos o beneficiamento dos peixes e outras carnes nas casas, nos ancoradouros e salgas, esperando que lhes sobrem algumas delícias junto aos bigodes. Cavalos, muares e alguns inocentes bovinos pastam displicentes pelos terrenos baldios de Passargada, bairro à beira-mar, distante uns 1.500 metros do centrinho comercial da aldeia. Ali mora somente o meu corpo gasto e extenuado de ambientes urbanos. Porque aqui neste Passo dadivoso o espiritual pouco dele necessita, devido à urgência de relatar e adentrar ao mundo das agrestes novidades.

Uma antiga e bucólica ponte pênsil de intenso tráfego aproxima as margens de terras e gentes rio-grandenses e catarinenses, num ir e vir constantes, fugidas da canícula, nos meses do verão austral. No mais tudo é a estação dos ventos e o movimento dos barcos, ora prenhes, ora minguados de frutos do mar. Homens e mulheres marcados pela ação da intempérie.

Enquanto este tudo, os olhos dos faróis da Barra do Mampituba contemplam o mar, estrábicos com a ferrugem da maresia. Feliz quem pode fruir um clima tão propício para o estro da Poesia.

Estação 02:
O POEMA VIVE

Enquanto descrevo, uma gaivota baila no ar. O poeta, extasiado, capta em versos o bailado aéreo nos salões do pensamento. Os seus pés acariciam a areia fina e também bailam na trajetória de raízes e ramas.

Entre um aquário bordado de peixinhos e o mar alegórico das paredes, há um jardim de verdes e de bom gosto – um recanto de felicidade no rosto e aura amiga. Neste ambiente transita um espírito em que o Amor habita. Ora debruçada sobre os canteiros, derramando punhados de terra como se fora uma bênção, ora brincando com os peixes multicoloridos, uma mulher plena de dotes cumpre as anotações de sua bela e longa viagem corsária de talento e peregrinações pelo país e pelo mundo.

É Ney Azambuja, a poetisa, por vezes estendida na rede, aberta ao leque da permanente juventude, contemplativa de suas plantas, ciosa de sua função no universo em que vive e atua. É ela a Musa, em seus quase oitenta e oito anos. É pena que os cerca de cinco mil habitantes do lugar não saibam que convivem com esta ave rara, que cuida da palavra poética com o mesmo esmero com que orvalha orquídeas no herbário.

Talvez porque a luz brilhe para quem não tem olhos para captar a sua exata correspondência ou por ser a Musa a anônima observadora do espetáculo que escapa aos olhos da comum criatura. Sobra-nos, assim, a incontida alegria de privar com Ney Azambuja e fazer parte de sua mágica de viver.

Estação 03: DE CASAS E VENTOS

Nesta casa de praia ocorrem imensas horas de “ócio com dignidade”, afinal sou um aposentado, ainda bem que não inativo. Aliás, um nem tão jovem jubilado. Este ócio útil e digno permite quilômetros de leituras, algumas retinas baças de tanta beleza rústica e maresia, também centenas de páginas de amor ao tempo, à vida, aos amigos que me são caros.

Ainda hoje, meia-tarde, olhava o interior do chalé ouvindo a voz do mar, e lembrei-me de ti – Marilu Duarte – de tua fraterna amizade, do teu talento estético e fotográfico. Eu havia levantado os olhos e topara com a Ponte Mauá, situada lá em Jaguarão, na ótica de tua lente, nos três quadros dependurados na parede. Nem sei se lembras da aquisição destas expressivas peças de tua obra.

Insólito vigilante guarda a nossa casa: um pescador entalhado em cedro, que um dia pernoitou numa banca de artesanato no Mercado Modelo, em Salvador da Bahia. Há um sol em madeira e metal que serve de ara, com algum resquício de Buda e xintoísmo, servindo para energizar e equilibrar os espaços. Os sentimentos vivos, cores e poemas são vidas a povoar os olhos. A popular “Lei das Pilchas”, com um gaúcho embombachado e bigode largo, lembra os meus laivos de amor ao gauchismo. Algumas fotos de Ney Azambuja, poetamiga que me vendeu o imóvel e que abençoa a casinha com a sua espiritualidade plena; a cimitarra de madeira sobre o espelho imenso, e chapéus-de-palha com ramos secos, amainam o som dos “sinos da felicidade”, em pedra. Nossa Senhora das Graças em seu oratório, Iemanjá e muitos amados livros observam a tudo com o sábio silêncio do mutismo.

Em meio a esta algaravia doméstica – dia e noite – os cupins fazem festa e, ao bater palmas, deitam pedaços de material vário, para a alegria das vassouras, o desespero de Andréa, e o espanto de saber que a minha asma sobrevive à poeira.

Estamos em obras, reparos necessários e os incômodos com pedreiros e pintores agitam os dias. Este o quadro que os teus olhos de artista plástica fariam coro e, por certo, reproduziriam belezas. Vês? Estou saudoso de nossos papos, desta intimidade dos condenados ao pensar!

Estação 04: A CASCA DE NÓS

Temos de ir a Laguna nesta Semana Santa: o sogro sofrerá uma operação cirúrgica daqui a alguns dias. Logo após estaremos de volta a Porto Alegre, a capital provinciana. Ando com saudades dela, de sua vestimenta de outono, dos plátanos esquálidos perdendo suas amarelecidas folhas. Do vento gélido batendo no rosto, quando dos volteios às margens do Guaíba, os ônibus arfando com pressa de chegar, e pessoas procurando proteção nos centros comerciais, às primeiras invernias.

Nestas bandas o vento norte andou fazendo estragos. O mar era uma fera se rebolcando sobre as areias e até roubou pedaços das margens do rio. O Mampituba, por sinal, andou vomitando lixo e revirou pedras de calçamento no ancoradouro da balsa. Faz dois dias que se aquietou e o sol tímido reina, em sua placidez de outono. À noite, a lua cheia é um imenso melão maduro com suas estrias sombreadas de lusco-fusco.

Não tem saído da cachola nenhum poema, apesar deste curso de observação de ambientes e os seus duendes, mas estamos grávidos de energia. Como podem notar, estou ávido de conversas e novidades.

O que tenho por aqui é parco quando sonho a Capital. A única livraria local amealha em suas “burras” os meus gastos com mais de quinhentas fotocópias, montagens várias de noticiários novos e antigos, canetas, folhas, marca-textos, disquetes, cartuchos de impressão.

A Casa dos Poetas de Torres e do Passo começa a quebrar o ovo e aglutina-se a comunidade em torno de sua comissão de instalação. Dia destes terá a sua primeira reunião pra valer. Talvez venha a eleger diretoria provisória logo. Vai depender do curso dos ventos. Com tanto céu e mar, decerto haverá alguns poetas para olhar o horizonte muito além da Ilha dos Lobos.

Porque os ventos sempre trarão as marés pra dentro de casa. O comportamento dos homens é similar aos do vento. Talvez por isso os barcos que adentram ao mar tenham os seus casarios: aquelas casinholas em torno da cabine de comando, que protegem a tripulação. Numa casca de noz sobre ondas revoltas, o marujo do leme é o caroço da amêndoa, quebrada a casca, vai-se a polpa. São os ventos e as cartas os únicos passageiros que trespassam. Os primeiros agem sobre o corpo e os casarios. As segundas sobre a mente e o coração. De todas sobram estragos.

Afinal, tudo é apenas passagem. Como as gentes, o vento e os barcos, no Passo de Torres, quase ao sul do mundo, bem perto da Ilha dos Lobos. Estes mesmos que vão e vêm, quase todos os anos, em suas migrações ao sabor dos ventos e das correntes marinhas, para sobrevier e procriar a espécie. Ao cronista cabe apenas o registro do lugar, dos homens, dos bichos e suas passagens frente ao tempo de comer, viver, sonhar e, eventualmente, semear para o implacável futuro.

– Do livro inédito O HÁLITO DAS PALAVRAS, 2004.
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/269686
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 21/10/2006
Reeditado em 26/08/2017
Código do texto: T269686
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
2832 textos (766101 leituras)
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Joaquim Moncks