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O PASSO DE VIVER E A CASCA DE NÓS

ESTAÇÃO 01: dos homens e dos barcos

O Passo de Torres, pequena cidade ao sul de Santa Catarina, na divisa com o Rio Grande do Sul, é um pedaço de terra banhado pelo Oceano Atlântico e o Rio Mampituba.

Uma ponte pênsil segura as duas margens de terras e gentes, num ir e vir constantes, fugidas da canícula nos meses do verão. No mais tudo é a estação dos ventos e o movimento dos barcos, ora prenhes, ora minguados de frutos do mar. Homens e mulheres marcados pela ação da intempérie.

Os olhos dos faróis da Barra do Mampituba contemplam o mar, estrábicos com a ferrugem da maresia.

Feliz quem pode fruir um clima tão propício para o estro da poesia.

ESTAÇÃO 02: o poema vive

Enquanto descrevo, uma gaivota baila no ar. O poeta, extasiado, capta em versos o bailado aéreo nos salões do pensamento. Os seus pés acariciam a areia fina e também bailam na trajetória de raízes e ramas.

Entre peixes e mar há um jardim de verdes e de bom gosto. Um recanto de felicidade e aura amiga. Neste transita um espírito em que o Amor habita.

Ora debruçada sobre os canteiros, derramando punhados de terra como se fora uma bênção, ora brincando com os peixinhos multicoloridos, no aquário, uma mulher plena de dotes cumpre as anotações de sua bela e longa viagem corsária de talento e peregrinações.

Por vezes, estendida na rede, aberta ao leque da permanente juventude, contemplativa de suas plantas, ciosa de sua função no mundo em que vive e atua, a musa é a poetisa Ney Azambuja, em seus gloriosos oitenta e oito anos.

É pena que os cerca de cinco mil habitantes do lugar não saibam que convivem com esta ave rara, que cuida da palavra poética com o mesmo esmero com que orvalha orquídeas no herbário. Talvez porque a luz brilhe para quem não tem olhos para captar a sua exata correspondência ou por ser a Musa a anônima observadora do espetáculo que escapa aos olhos da comum criatura.

Sobra-nos, assim, a incontida alegria de privar com Ney Azambuja e fazer parte de sua mágica de viver.

ESTAÇÃO 03: de casas e ventos

Ainda hoje, meia-tarde, Marilu Duarte, olhava o interior do chalé, ouvindo a voz do mar, e lembrei-me de ti, de tua fraterna amizade, de teu talento estético e fotográfico. Eu havia levantado os olhos e topara com a Ponte Mauá, em Jaguarão, na ótica de tua lente, nos três quadros dependurados na parede. Nem sei se lembras da aquisição destas expressivas peças de tua obra.

Nesta casinha de praia ocorrem imensas horas de “ócio com dignidade”, afinal sou um aposentado, ainda bem que não inativo. Aliás, um nem tão jovem jubilado. Este ócio útil e digno permite quilômetros de leituras, vesgas retinas de tanta beleza rústica e maresia, também centenas de páginas de amor ao tempo, à vida, aos amigos que me são caros.

Um insólito vigilante guarda a nossa casa: um pescador entalhado em madeira, em cedro, que um dia pernoitou numa banca de artesanato no Mercado Modelo, em Salvador da Bahia. Há um sol em madeira e metal que serve de ara, com algum resquício de Buda e xintoísmo, servindo para energizar e equilibrar os espaços. Os sentimentos vivos, cores e poemas são vidas a povoar os olhos. A popular “Lei das Pilchas”, com um gaúcho embombachado e bigode largo, lembra os meus laivos de amor ao gauchismo. Algumas fotos de Ney Azambuja, a poetisa amiga que me vendeu o imóvel, e que abençoa a casinha com a sua espiritualidade plena; a cimitarra de madeira sobre o espelho imenso, e chapéus-de-palha com ramos secos, amainam o som dos “sinos da felicidade”, em pedra. Nossa Senhora das Graças em seu oratório, Iemanjá e alguns amados livros observam a tudo com o sábio silêncio do mutismo.

Em meio a esta algaravia doméstica – dia e noite – os cupins fazem festa e, ao bater palmas, deitam pedaços de material vário, para a alegria das vassouras (o desespero de Andréa!) e o espanto de saber que a minha asma sobrevive à poeira.

Este o quadro que os teus olhos de artista plástica fariam coro e, por certo, reproduziriam belezas. Vês? Estou saudoso de nossos papos, desta intimidade dos condenados ao pensar!

Estamos em obras, reparos necessários e os incômodos com pedreiros e pintores agitam os dias.

 ESTAÇÃO 04: a casca de nós

Temos de ir a Laguna nesta Semana Santa: o sogro sofrerá uma operação cirúrgica daqui a alguns dias. Logo após estaremos de volta a Porto Alegre, a capital provinciana. Ando com saudades dela, de sua vestimenta de outono, dos plátanos esquálidos perdendo suas amarelecidas folhas. Do vento batendo na cara nos volteios às margens do Guaíba, ônibus com pressa de chegar e pessoas se escondendo nos centros comerciais, às primeiras invernias.

Nestas bandas o vento norte andou fazendo estragos. O mar era uma fera se rebolcando sobre as areias e até roubou as margens do rio. O Mampituba, por sinal, andou vomitando lixo e revirou pedras de calçamento no ancoradouro da balsa. Faz dois dias que se aquietou e o sol reina, tímido, em sua placidez de outono. À noite, a lua cheia é um imenso melão maduro com suas estrias sombreadas de doçura.

Não tem saído da cachola nenhum poema, apesar deste curso de observação de ambientes e os seus duendes, mas estamos grávidos de energia. Como podes notar, estou ávido de conversas e novidades.

O que tenho por aqui é parco quando sonho a Capital. A única livraria local amealha em suas “burras” os meus gastos com mais de quinhentas fotocópias, montagens várias de noticiários novos e antigos, canetas, folhas, marca-textos, disquetes, cartuchos de impressão.

A Casa do Poeta de Torres começa a quebrar o ovo e aglutina-se a comunidade em torno de sua comissão de instalação. Dia destes terá a sua primeira reunião pra valer. Talvez venha a eleger diretoria provisória logo. Vai depender do curso dos ventos.

Com tanto céu e mar, decerto haverá alguns poetas para olhar o horizonte muito além da Ilha dos Lobos. Porque os ventos sempre trarão as marés pra dentro de casa. O comportamento dos homens é similar aos do vento. Talvez por isso os barcos que entram mar a dentro tenham os seus ‘casarios’, aquelas casinholas que protegem a tripulação.

Numa casca de noz sobre ondas revoltas, o marujo do leme é o caroço da amêndoa, quebrada a casca, vai-se a polpa.

E são os ventos e as cartas os únicos passageiros que trespassam. O primeiro age sobre o corpo e os casarios. As segundas sobre a mente e o coração. De todos sobram estragos.

Afinal, tudo é apenas passagem.

– Do livro O HÁLITO DAS PALAVRAS, 2007/14.
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/269686
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 21/10/2006
Reeditado em 19/01/2014
Código do texto: T269686
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709722 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 00:43)
Joaquim Moncks