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CONTEMPLAÇÃO URBANA

Estamos a usufruir um dia luminoso, pleno de flores roxas nos ipês, à frente dos olhos contemplativos.

A Primavera, a verdade primeva das estações do ano, reina absoluta neste outubro da 52ª Feira do Livro, em Porto Alegre. Há uma quentura no ar, um querer bem. A querência amada respiga o hálito das flores.

Observa-se o circunstancial urbano do emaranhado de fios elétricos, ruelas plácidas de carros e pessoas. Uma que outra pomba arrulha sobre os fios. Voam muito pouco.

A janela de meu apê fala com a vida que se desenrola. Esta, humana, cantarola dolente nesta manhã.

Ainda ontem, no final da tarde, as pessoas colhiam pitangas que estavam à frente de seus olhos, ao alcance da mão. Numa reminiscência dos pátios interioranos, derramava-se a bênção do reino vegetal.

Na calçada oposta à de minha casa há uma pitangueira, única e esquálida arvorezinha de folhas delicadas. Ela também, como os ipês e os jacarandás, olha para o céu.

Mas os transeuntes somente olham para os seus pés. Estão cansados, ávidos de amor e correm pra casa. Talvez o reinado feliz os espere no ninho.

Talvez tragam o dinheiro pra comprar o pão de cada dia, que, por sinal passou a ser vendido a quilo em todo o Brasil, por lei, contrariando a praxe histórica.

É o outubro das eleições presidenciais e, mesmo assim, a lei nega o voto e a vontade popular. Os pobres terão de trabalhar um pouco mais, fazer hora extra, talvez. Desde ontem, o preço do pão por quilo representa cerca de 40% a mais no bolso. O programa governamental “Fome Zero” rendeu-se às leis de mercado.

Tudo isto é a Cidade Baixa, em Porto Alegre, o jovem point da algaravia noturna.

Hoje é sábado, e dormem os barulhentos da noite anterior. Um deles, enquanto o poeta olhava pela janela, apanhou do chão um cacho de flores roxas e o entregou, com mesuras tragicômicas, à sua companheira de rua. Ela lhe deu um aperto na bochecha, sorrindo.

Também não olharam pra cima, pros ipês e jacarandás floridos. O novo não era a rua. Seus olhos falavam o álcool, possivelmente a droga e algum desejo sexual restado nas veias. Morreram atropelados, abraçados, às cinco da matina. Desta feita, os olhos baços olhavam pro céu.

Nesta manhã, sobre as manchas de sangue do casal atropelado, passa um carro de som conclamando para o voto nas eleições do próximo domingo. Perto daqui, no Largo de Zumbi dos Palmares, um orador rouco de tanto falar, faz o showmício do outro partido. Agitam-se bandeiras e faixas com dísticos de promessas para o futuro.

O povo, na feira livre dos sábados, faz suas compras para a semana, metendo a mão nas algibeiras, e algum gaiato furta-lhe a carteira. Ecoa, altissonante, o “pega ladrão!”. Um policial fardado, com ar de galhofa, passeia com a namorada.

A vida é plácida no bairro provinciano da grande cidade de quase dois milhões de habitantes.

– Do livro CONFESSIONÁRIO - Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006. http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/269995
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 21/10/2006
Reeditado em 24/05/2008
Código do texto: T269995
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709722 leituras)
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Joaquim Moncks