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Crônicas da Esquina ( Descubra o Amigo )


                                            DESCUBRA O AMIGO

Quem o olha sentado no bar do Zeca’s é capaz de jurar que ele não fala. Para os que têm o prazer de conhecê-lo, sabem-no falante, embora os ouvidos não se possam dar o luxo da mais ínfima desatenção. Mas isso é o mínimo perto de quem nenhuma palavra escapa.
 Gosta de sentar-se à varanda do bar ou na calçada, sob a única árvore que lhe sombreia. De um ou de outro lugar, ele observa a vida que flui, fruindo-se dela com calma e leveza. Pode estar sozinho, mas nunca solitário.
Do meu posto, observo os movimentos do amigo. Sei que eu poderia chegar e, ali, estabelecer um interminável bate-papo sem cansar a simpatia morena. No entanto, deixo-o só. Talvez converse com seus botões coisas que somente a eles confia. Seus pensamentos são entrecortados por cordiais cumprimentos que lhe chegam. A mão erguida e o sorriso franco retribuem os afagos recebidos.
Meu amigo é sério, mas não o bastante para que seja sisudo. A olhos outros, talvez. Quem sabe o bigode não lhe acarranque a face? Não creio. A impressão é a de que nasceram juntos como irmãos siameses.
 O chope a sua frente evapora. Os amigos tardam, embora não necessariamente os aguarde. Virão naturalmente, bordejando pelos ares de Vila Isabel. Nenhum traço de impaciência lhe vinca o rosto. O próximo chope vem acompanhado de um jornal que ele folheia como se as notícias fossem velhas conhecidas.
 Nunca fala demais por saber do perigo que as palavras têm quando ditas fora de hora. Mas, se perguntado, não esconde suas opiniões. É sempre franco e aberto ainda que possa causar alguma espécie de constrangimento. Sabe que assim evita fofocas descabidas.
 Percebo que já não estará sozinho. Das três vias que ajudam a formar a encruzilhada, chegam-lhe novas notícias. Vindo da praça Tobias Barreto, alguém se aproxima com a calma de um lord e, cachimbo em punho, aboleta-se. Na mesma direção, mas em sentido contrário, outro amigo, vestindo a camiseta do Clóvis da Vila da Penha, enfeita-lhe os olhos e a mesa. Por último, um outro arrasta-se ladeira abaixo e, percebendo a demora do copo, lhe pergunta se a festa é de camelo. Nosso amigo acolhe a todos com um sorriso fraternal.
Do outro lado, enquanto observava-lhe os movimentos, eu era sua companhia invisível. Poderia acená-lo tal qual Pessoa ao amigo da Tabacaria. Também o universo poderia reconstituir-se imortalizando uma esquina de muitas amizades, não é, Bira?

                         
                                                                          Aldo Guerra
                                                                         Vila Isabel, RJ
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 22/10/2006
Código do texto: T270487
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra