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QUANDO A PALAVRA EVAPORA


O balcão de livros exposto quase na calçada. Uma liquidação de narrativas que não atrai a atenção dos olhares atentos aos horizontes das breves narrativas. Três por vinte e cinco! Livros de Jean-Paul Sartre, Jurek Becker, Friedrich Durrenmatt e Jean Genet são encontrados entre outros que já não são editados.
O livreiro apóia-se ressentido no pilar da antiga construção (Ed. João Ghignone). Um marco arquitetônico da Rua XV de Novembro em Curitiba, o retrato de um tempo que não volta, nem ao menos na literatura. Ele aprendeu o ofício com o pai ainda nos primeiros anos e sempre o exerceu com amor incondicional. Por muitos anos, manteve viva a esperança de uma nova revolução que assegurasse a importância da leitura, mas se entregou à realidade com um reticente lamento: “Nunca mais vendi um exemplar de Eric Fromm”.
Aos poucos a livraria foi minguando. Como um corpo cansado que se curva aos anos, as prateleiras já não suportavam o peso de tantos autores e sucumbiam ao imediato alívio dos que passam rapidamente. Autores que surgem com a mesma facilidade como desaparecem, livros que estabelecem verdades já superadas numa próxima edição.
O primeiro compartimento a ser alienado foi o Café. O local decorado com fotografias dos grandes autores nacionais já não atraía os leitores. Pelas mesas algumas sombras ainda compartilhavam a beleza do sorriso de Cecília Meirelles, um poeta teimava em escrever no guardanapo alguns versos recém-paridos, mas a maioria dos freqüentadores era formada por pessoas refugiadas das obrigações cotidianas nos jornais diários.
Com a fachada fragmentada, a livraria persistiu em grifar sua existência. O balcão de livros, as vivências narradas pelo livreiro... Percepções sobre as tardes de ouro na Livraria José Olympio com a presença de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Clarice Lispector... O setuagenário livreiro compartilhava alguns trechos de sua vida dedicada aos livros, contava casos que presenciou na livraria do pai, passeava por entre as prateleiras com as marcações dos livros que revelavam sua vida.
Com um idealismo admirável, a livraria permaneceu com as portas abertas por alguns meses. O balcão repleto de raridades, as prateleiras esvaziadas de livros meteóricos... Um dia simplesmente não amanheceu. Deixou cerrada sua história ante a multidão, que continuou o ir e vir no calçadão, indiferente ao seu último suspiro. Os exemplares remanescentes foram retirados durante a noite, um resgate silencioso e melancólico.
Ruídos... Duas semanas marcadas por misteriosos barulhos sob as portas fechadas... Inauguração anunciada com pompa. Numa segunda-feira, os grandes portais reabriram com uma iluminação intensa e fria, com prateleiras coloridas de pequenas embalagens e vendedoras uniformizadas. As ofertas atraíram um movimento intenso e novamente o local abrigou um ponto de convergência de um público rejuvenescido.
A livraria deu espaço a uma perfumaria. A palavra evaporou e orvalhou os olhos de poucos num anoitecer outonal. A linguagem tornou-se fragrância... Uma alegoria passageira que envolve a vaidade humana sem o peso de uma consciência fortalecida.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 23/06/2005
Código do texto: T27060
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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